Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O QUE DIZEMOS DE MEMÓRIA, PERDIDAS AS IMAGENS  

A ilha acentua as ausências: a tua, mera representação (isto é: alguém do outro) como na recomposição de uma paisagem barroca ou de uma cerâmica chinesa (arte no limite do irrepresentado ou o inútil da abstração), como ação transmutadora da pedra num princípio de sentido (em modo de encruzilhada existencial). O teu corpo, implausível como evocação de ritos, como objeto de uma fertilização verdadeiramente inaugural (a razão críptica) quando todas as formas estão abertas como sombra – e como uma serenidade que não pertence à natureza, como uma efervescência que não pertence à tempestade, mas assombra no seu sigilo de mães gastas (mãos castas). Vagas silenciosas lambem o dorso negro da ilha, rebentam e resplandecem e és tu o estrondo, a afirmação de um vigor que não corrompe, de um tremor na boca viva que ora move o mar ora lhe resiste. Porque a harmonia da nudez é uma reptação de pérolas pela encosta queimada e cantam os teus antídotos de pássaros policromos; quando cravas os ossos no fundo da gruta, a lava ressuda sobre as sementes germinadas dos grandes cedros. Ágil e essencial essa nudez esmaga a geometria organizada onde se desemboca por amor (necessariamente, que se multiplica em padrões minuciosos na concha de um eremita). Por cima, o que é comum – e muda e continua comum. As árvores eram degraus das escadarias sem fim por onde ascendias e emaranhavam-se como a eletricidade das células recria as infindas variações das fábulas. E, contudo, a diversidade, contudo, o desfolhar as soluções do corpo, contudo, vestir a casca abrupta de um carvalho e ser o que quer que seja «ser». Ou sentir a inércia empurrar o peso do corpo e deixá-lo pela encosta abaixo ir, sobre as ervas e as silvas rebolando até um ponto onde a dor arranhada mia, parto de grifos num largo sorriso de frutos libertos. Uma fábrica arruinada costura ideias perdidas, é um efeito romântico, uma propensão dos artifícios a corrigirem os simulacros ou, até, os insucessos; a prolongarem a agonia latente num gesto como num beijo ou num meteorito que se desfaz e nos faz pensar num desejo ainda que nada signifique; virtual, dizemos – tanto da velocidade como do apagamento. O vestido de folhos arrepanhado e desfazendo o «vestir», um molho de lâmpadas policromas espiralando pelos tetos e estatelando-se num uníssono quando cai o vestido. Transparente o corpo não se diz nu, mas gruta – ou labirinto de caminhos – ou viagem de raízes frágeis, emaranhadas e predispostas. Sucção – tempo líquido redemoinhando, chispas – agrado perfurante: vinculo magnético na aura amnésica do cenário: o que dizemos do lago quando o cisne foge? Descobrimos o mecanismo dos repuxos que ou não suscitam o enigma ou a fotografia falha como alguém que não se cala com os detalhes da sua aborrecida vida. Por vezes, foi no lúpen urbano (uma lógica de extremidades soltas) que escorregámos. Nas suas irmandades precárias em torno de uma ideia que se constituirá – ou não – mas sempre ao lado dos que constroem o próprio jardim, o próprio filme que não termina e que é, simplesmente, o vento do tempo levando-nos.