Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O QUE É QUE AS PESSOAS SÃO    

Tanto podemos ser contagiados pelos que acham tudo entusiasmante como podemos achar aborrecida a normalização que as estatísticas da ONU revelam: 1) quanto às expectativas dos cidadãos em relação ao Natal, 2) quanto aos que terão acesso à vida eterna, quais serão os critérios de seleção e em que consistirá, 3) quanto aos que estão contentes com o tempo presente e preferem-no a qualquer outro (embora nenhum pudessem escolher), 4) quanto aos que confiam que o progresso trará abundância e igualdade entre todos, o fim das invejas, das rivalidades e das guerras, 5) quanto aos que acham que os governos serão melhores pois será impossível um estadista corromper-se e continuar a governar. Sou dos que está entusiasmado e acho que o meu Natal será melhor que o dos outros, porque o mereço e, assim, também serei selecionado para a vida eterna (que é melhor que a morte definitiva); na dúvida, prefiro um futuro tão avançado quanto possível e invejo os que o viverão tal como invejo os governantes hábeis que enriquecem e continuam estimados pelos cidadãos. Ou seja, quando penso no que a nossa época me proporciona, entusiasmo-me; quando penso que o mesmo é proporcionado aos outros, aborreço-me. Trata-se de uma hesitante normalidade, uma anti-nietzschiana cidadania, consciente de não ser um impiedoso super-homem envolvido em titânicos projetos de aperfeiçoamento civilizacional, trágico e admirável senhor da sua força corajosamente titânica. Sou como os outros, um zaratrustrazinho doméstico que não sabe o que é o progresso senão pelas estatísticas da ONU, uma leitura aborrecida de números pouco entusiasmantes.