Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o que é que vale a pena?

Sim, miragens numa ideia de fogo perene; que consuma o que perece ou que se decanta. E isso que resta, vale a pena morrer por isso? Interrogamos o pai que não pensa, o Estado que abusa, o juiz indesmentível na sua asquerosa soberba, interrogamos o polícia que nos expulsa da ilha das vantagens contingentes. Na grelha do ser, a cenoura; no lugar de um conhecimento insustentável, a abjeta rigidez da pedagogia. E um discípulo, um amigo, vale a pena morrer por ele? Alguns com tratores bibliográficos muito musculosos, outros como bebés a dar corda ao boneco no sentido errado, ao colo da mãe-boneco, do padrasto/boneco de pedra – valem a pena os binómios existenciais dos anões ruidosos que trocam o lugar às coisas da mente? Vale a pena morrer pela menina que manobra o espaço da desova? O que será de uma mulher, de uma mãe, mesmo de um leitor ou do próprio poeta quando suspeita de si no auge da indecisão? Haverá um destinatário para a avalanche de sangue do seu coração ao coração onde ancorou uma grande parte da sua alma? Onde o soterram, acabará por estimar essa paisagem de caminhos silvados. Vale a pena morrer por uma afirmação da liberdade que não existe na escrita? Mesmo o património, o cheio do ventre, o teor íntimo da vontade são construções sem verdade própria, acrescentava ele. Valerá a pena desprezar o óbvio do olhar em troca de uma racionalidade excessivamente consistente ainda que isso signifique ignorar o instante pleno em que o poema se evapora e o seu mundo estável sedimenta na mente? Interrogamo-nos ao acabar a viagem numa ilha de amuletos, a sua barca afundada como outras. Valerá a pena arriscar o que se vem pensando pelo timbre persuasivo de uma voz? Por exemplo: «Amo as ameias dos antigos castelos, amo a colunata do corpo, amo o mosteiro de Botticelli. Banho-me no sangue de aríetes com as vigas da língua ornamentadas de declinações abstrusas. Porque a língua é amar um poeta, é esculpir no mármore frio o rendilhado da expressão. A mente acalora fascínios: épocas de caça e vinho num fundo de atração pelo periclitante e pelas farpas lentas da vida. Amar um poeta é amar as suas exigências quase sobre-humanas, quase trágicas, separadas de nós pelo luxo gongórico da paixão». Por vezes, a voz perdida de uma mulher redimensiona-nos. Na sua sombra sentimos discursar uma natureza epopeica que muda com as horas do dia, que refunda os suportes da esperança, com as vibrações ocas de uma primavera cósmica que abarca todas as figuras da poesia. Mas trespassará a muralha indestrutível do fenómeno de si? Perguntamos. Há muitos anos que ignoramos a quem se dirigir, cada leitor imerso num magma de sombras e impossível de aceder segundo um imperativo categórico. Mas valeria a pena amar cada um, acompanhá-lo na busca de um retrato próprio?, de um lugar geométrico numa atmosfera de questões? Admitimos serem racionalizações as estas dúvidas, mas destrinçar as miragens nesta horta iridescente, com o futuro contaminado por tantas expectativas?