Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O QUE É RELEVANTE (ACONTEÇA OU NÃO ACONTEÇA)  

De tudo o que acontece o que é relevante é, apenas, aquilo que faz as situações acontecerem – o que atua sobre as coisas e o que determina o que pensamos e o que fazemos. Ocasionalmente, podemos dizer também relevante aquilo que nos faz desejar que algo de relevante aconteça e aquilo que dá às coisas o aspeto que elas tomam como se algo estivesse a acontecer quando, efetivamente, nada sai do trivial. Estas questões são relevantes não porque façam algo acontecer ou que pareça acontecer, ou que torne algo desejado, mas porque estabelecem um critério para pensar e pensarmos o que é relevante é a essência da liberdade. Muitos jornais seguem os mais abjetos mecanismos do poder: os que nos oferecem o espetáculo dos gladiadores no circo lutando ou os que nos põem a seguir equipas de futebolistas aos pontapés e, ainda pior, ficar a escutar as alarvidades que os comentadores profissionais são capazes de emitir com um sentimento de transcendência como se fossem profetas do Antigo Testamento. Portanto, a atividade de um presidente ou de um rei ou de um treinador de futebol são relevantes porque assim são consideradas, logo compramos o jornal que os mencionam; mas quando deparamos com a cirurgia do dente do sizo do czar das rússias, com as dores menstruais da rainha inglesa, com o banho turco do presidente da Catalunha, somos levados a nunca mais comprar nenhum jornal. Ainda assim, ouvimos comentar as formas de assédio e as preferências sexuais dos atores de Hollywood (malgrado o descarado mau-gosto) e, estupefactos pelos poderosos mecanismos de imitação ou, ao invés, de repúdio, que atuam nas pessoas voltamos a comprar o jornal, procurando conhecê-los. A conclusão é que nos enganamos se decidimos o que é relevante por impulsos furibundos; antes deveremos pensar no que andamos à procura: o que adiantaria conhecer os mecanismos que fazem acontecer as coisas determinantes. A resposta óbvia é que, conhecendo-os, poderíamos interferir no seu acontecer tornando o cosmos verdadeiramente artificial. Com estes jornais, conhecemos, apenas, os mecanismos de uma trivialidade naturalista, espontânea – cândida, até, com os energúmenos ao lado das pessoas de bem, e se continuamos a comprar os jornais é para que nos garantam que o mundo continuará como até agora.