Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o que fazer quando o poema acaba

Quando conseguir concluir o poema, embarcarei para a Índia e por lá ficarei ou noutro país onde seja impossível triunfar. Um poema contém uma micro-solução com exigências próprias quanto ao futuro: é preciso que os odores das ruas sejam penetrantes e libertos de passado para que, ávido de tédio, me procure sem saber para onde irei ou o que ando a fazer a exemplo da linguagem que penetra o poema. Pelo contrário, há cidades que são a joalharia de materiais etéreos, onde as palavras que são sangue e custam a encurvar jazem no magma da mente como direções de avenidas ilusórias. Deparo com elas em becos de urinar ou de silêncios furtivos e, quando chegam à boca, cuspo-as. Sem nojo ou menosprezo; são momentos em que as palavras desembarcam em pleno oceano e se afundam logo. No fundo de uma voz encontro o mar e o fogo, sim, mitos, lastro impossível de pesar. Para mim que preciso de viajar, de comparar cidades recentes com lugares onde tempo e ideias há três mil anos pararam, retornar significa cumprir um rito de omissão de sentido como quando as pessoas chamam a polícia e confessam crimes não cometidos só por serem possíveis. Não se pode permanecer numa cidade antiga se nos perdermos no seu enrugamento, se nos embasbacamos na sua corporalidade, se o turvamento nos vicia. Concentramo-nos no seu ressonar tumultuoso, observamos o lado para onde acorda, da mesma forma que os subterfúgios estremunhados do poema. O que os ratos dos esgotos transportam em qualquer cidade é uma cultura atravessada de sintomas, partilhada por todos e pelos anjos, uma espécie de doença do existir que se manifesta demasiado tarde. A esta enorme plateia perguntamos o que falha com indisfarçável desejo que falhe.