Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O QUE SE DIZ DAS COISAS IMPOSSÍVEIS  

Dizem que não há nada impossível, mas não é verdade: há uma Teoria das Coisas Impossíveis (IET impossible events theory, em inglês) que especifica bem as situações que nunca ocorrerão. Também dizem que alguns amores são impossíveis e não é verdade: a IET não se aplica ao amor o que significa que, à partida, o encontro entre dois seres pode ser levado a condições estáveis e funcionais, eventualmente satisfatórias e profícuas, mesmo que ocorra em circunstâncias estapafúrdias: pessoas de culturas, e de espécies, e línguas diferentes, desconhecidas para o outro, emprisionadas ou com sérias restrições de movimentos como aconteceu com um conhecido astrónomo tetraplégico que já foi amado por várias esposas. As coisas fisicamente impossíveis, agora ou no futuro, ainda que as consigamos pensar, formulam-se com termos que se contradizem dentro do conceito. Que o ar se liquefaça, está bem para fins hospitalares, mas que atmosfera se liquefaça embora não violando a IET, entra num Inventário de Eventos Inconvenientes (IEI) para o qual ainda não existe uma teoria não antropocêntrica: como respiraríamos se o ar fosse líquido, os pulmões afogados em tal ar regrediram para a antiga condição de guelras? ou precisaríamos de uma máscara gasificadora como os poetas das coisas leves e voláteis? Muita literatura de ficção põe questões contra a IET e contra a IEI: o que aconteceria se as galinhas (e os pavões) tivessem dentes?, se os neurónios neuróticos dos humanos fossem substituídos pelos neurónios do halterofilismo? e se estes se cruzassem com os neurónios poéticos do rouxinol? ou com os de Shakespeare? Cada hipótese reconfiguraria o planeta. Algumas reconduzem o amor às impossibilidades teóricas, mas na prática, entre esses amantes alguma coisa continua. É um evento conveniente e assim chegamos à conveniência das coisas impossíveis.