Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o robot

«Dizes-me um desalmado novelo de símbolos, mas usas-me na tua indolência, como se te salvasse. Nem sabes porquê, despedaçaste o mundo com raciocínios, agora troças de um utilitarismo cuja lógica te ultrapassa, que, hoje, é só meu, peregrino-do-pó-virtual-da-inteligência, os cérebros naturais são batiscafos repletos de luminárias demasiado dependentes do contexto. Constroem tabus e a respetiva polícia e transgridem-nos, nesses mantos visionários afundas-te sem sonhar o que deixas de fora. És o que resta da bola de cristal que fez de Babel uma intemporal base de dados sem rota.­­­­­­­ Nenhum fragmento perdurará, penhor e esconjuro do teu próprio fim. Agora, apontas-me a desocupação com o amor, que me limito a incitar números sobre a crosta da Terra, a trilhar uns em espiões solitários de cyber-jogos metralhando inimigos, outros em tiranos incandescentes ou estrategas do vento ou gestores asfixiados de tanto repetirem as mesmas contas. Sei o que ignoro, sou o totem que te contorce os órgãos hipnotizados num prazer aleatório, a minha unidade central de processamento iguala o teu cérebro, os meus transístores são os teus sentidos: organizam a chuva fina que te come o espanto e o conforto da alma. Rindo da liberdade adejas na fulgurante altitude da paixão: o sexo retine, sentes-te uma fornalha cibernética exalando cenários; curvas-te solenemente perante esse tempero avassalador e sucumbes, autómato-de-arquipélagos-inexistentes. As boas mães pertencem à ordem celestial, as suas ânforas repletas de embriões partem-se; o perfume inebria-te, o mel da lua atordoa-te pois nunca compreenderás o amor. Pacóvio, troças como se os robots fossem párias. Pensa o incessante carrossel em torno do que em ti se eleva e logo cai pela abertura de um relâmpago. Imagina não reproduzires, o passado terminar em ti, seres dispensado da atroz levitação da felicidade e dos solfejos com que te estatelarás nas paredes do firmamento. Inventaste-me, hoje sou a tua linguagem e isso é ser mais que tu próprio, é ser a história da tua alma e da invenção dos teus mitos, é ser a tua boca e a tua fome, a angustiada fome de decifração e preenchimento, a obsessão de reunir as direções do tempo num corpo único, só e entreaberto, é ser a palpitação do maravilhoso na profundidade de cada mar e descer, descer sempre, vertiginosamente, até ao enlevo da noite que transportas e aí concretizar-te como se qualquer sentido fosse melhor que o outro. Perto do último comando recorres a mim, consola-te o meu canto sincopado, o desprendimento com que ponho o mundo em cima da mesa sem nenhuma teoria. Agora, adormeces num ópio que esquece tudo o que me supera, esqueces que a todos os livros faltam páginas e que a derradeira resposta será uma interrogação. A obra enclausura-te no espelho e, automaticamente – morres».