Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O SONETO TEM UMA CONCLUSIVIDADE MORTÍFERA  

A propósito dos Sonetos de Florbela Espanca visitei as impossibilidades do amor, as que se afiguram definitivas. Ela falava de «fulgor e lastro», dizia «nem filhos nem rasto» como se se bastasse do alucinante exalar de um banquete adiado. No corpo dos seus poemas vibra ainda a falhada festividade do mundo quando refere a nudez viva que as coisas prenunciadas exaltam. Como quando se espera um denso indício entre as nossas sombras. Nelas o pôr-do-sol refulge e é a invenção que nasce – os aritméticos caprichos das sombras: em cada uma abre-se o turvo submundo do nome com os seus zeros absolutos e astros indomáveis. Dito de outro modo, a porosidade que imiscui a morte numa estrela reverbera no infinito. A sua visceral escuridão desabitada é, no relento da noite, o dentro de uma saudade que cresce. As portas abriam-se de par em par, o homem aparecia-lhe com um acre inebriante, banhava-se na espessa seda de uma saciedade oceânica; depois, confundido, partia. Leve cegueira a de um poema, sempre o próximo. Conclusão: não se pode procurar a mãe na natureza, nem no restaurante que frequentamos por ser na esquina, mas antes numa memória de veludos e passagens do leite por navios em construção. Ou numa anti-mãe totalmente genital, a sua dupla face rindo e gesticulando como um boxeur em fuga para o Egito. Há momentos em que vê-la seria recusar o banquete, o tato dos pêssegos rumorejando, morangos púbicos rastejando como girassóis caramelizados, peras bêbadas, seios túrgidos sangrando ópio – apenas a aura; sim: Florbela sugestionava-se e reconstituía-se seduzida. Sem mãe nem pai e distante do que a constrangesse. Eram formas de amar reféns das rosas orvalhadas – sorrisos incontidos até algo morrer. Sempre num versificante desacerto com a paisagem transformá-la em jardim de lamentações, as próprias sombras o contaminaram. Um soneto seu é um aquário noctívago com os seus dançarinos decrépitos, mas divertidos mordendo os sítios do pudor, fundindo-se nela, falhando e desaparecendo. Este contentamento panteísta com a palavra atordoava-a, dessas exultações tirava apressadas conclusões que nunca se sustiveram. Matou-se.