Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o Taj Mahal negro

Toda a natureza existe e se embeleza em vista da reprodução. As flores do jardim competem para as abelhas que trabalham organizadamente para uma rainha-mestra reprodutora e fazem exaltantes as primaveras. A civilização especializa os indivíduos e distribui-os – a hierarquia marca a reprodução ou a reprodução condiciona a hierarquia? Nas sociedades humanas tudo pode acontecer no sentido de os papéis sexuais de cada género serem condicionados pela imaginação; esta condiciona as expectativas que são, por sua vez, sugeridas por uma interpretação do comportamento do outro. Esta observação do outro ora é muito recatada, restrita a um olhar uma fração de segundo mais demorado ou num relance sobre localizações indiscretas do corpo, ora são muito descaradas, quase javardas a percorrerem o outro de uma forma explícita e insistente – porque a javardice desrespeita e o desrespeito, tal como o poder permite tanto o requinte como o abuso e a submissão do outro que se amesquinha. Ficamos todos olhando o Taj Mahal e a pensar que morreremos a parir como a princesa. Catorze filhos teve ela, os últimos já entradota o que dilatava os riscos da gravidez, mas como cessar o império de uma rainha-mestra senão reinando ainda? Como morrer senão parindo? Assim como as lágrimas se soltaram simétricas, inconsoláveis e simultâneas do rosto de Shah Jahan, o marido, assim o mármore branco se esburaca, a alma rendilha-se, a eternidade parece insuperável como a tristeza. Pareceu-lhe absolutamente necessário outro Taj Mahal negro pois que o luto começa branco e simétrico da vida numa memória continuada por truques de evocações, mas há um momento em que a presença se perde e o que fica é o negrume da resignação. Os filhos depuseram-no impedindo a construção de um Taj Mahal negro na margem do rio oposta. Seria redundante, mas as pessoas tristes tendem à simetria.