Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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OS MISERÁVEIS  

Os que estudam o homem nunca se chegam à varanda sobre os miseráveis que passam nas suas entorpecidos rotinas, contudo, são eles que contêm os dotes indivisíveis do intemporal da história. São os agentes que nada marcaram, nada produziram, comeram e respiraram como os outros e a nada se sentiram obrigados, nada devolveram, nada geraram; testemunhas do que não aconteceu, do que não foi desejado, do que ninguém narrou. A sua vida está no subsolo da cinematografia quase panorâmica e fácil de falsear que aparece nos livros. A personagem principal é prometida a cada um e a todos. Por isso desculpamos a vileza infame dos nossos baixos sentimentos. Fanfarreamos sentindo-nos heróis à altura da nossa sede de admiração. No momento da aclamação, escorregamos no palco, estatelamo-nos em plena glória, ninguém se surpreende: «A glória raramente se sustém», dizem-nos entre outras explicações políticas moralizantes: «Os heróis revezam-se». O nariz cresce com cada mentira sobre as nossas consciências. Tememos o Tanátos íntimo que nos sussurra, que nos destrói o esforço, que nos mina a comunicação (quanto mais amamos mais destruímos): «Usa esta máscara funerária construída para a tua imortalidade». Mas a imortalidade, visivelmente, fracassou. O caminho espiralava para um progresso que nos deixou de fora, cada um vive num círculo de indiferença e quase felicidade. Não é o que a rotina do entorpecimento faz dos miseráveis; absorve-os numa morte que não mata, mas que, peganhenta, lhes dirige os passos num carreiro de formigas envenenado, que apenas lhes proporciona a ração indispensável à miséria – roubada, traficada, sacada de uma misericórdia pretensiosa que os mantém miseráveis. Nunca se escreverá a história dos que não moveram a história como se as margens não pertencessem ao rio – como se esses rascas figurantes se confundissem nas pedras do caminho, apenas espezinhados pelos olímpicos candidatos à imortalidade.