Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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os sistemas generacionais

Ter ou não ter mãe é um detalhe temporal pois, num certo instante todos tivemos algum tipo de dispositivo que utilizou um determinado programa genético resultante de uma combinação genética mais ou menos amorosa. Hoje, devemos fazer afirmações maximamente abrangentes e inclusivas. Poderia, como muitos outros, espraiar-me em recordações infantis, necessariamente mistificando um vínculo sobre o qual há um modo de dizer e de pensar estabelecido; o que farei é criar uma nova noção não afetiva de amor sem cair no oco tautológico da ciência. Porque ser mãe é, sobretudo, o único formato da continuidade entre as pessoas; ela é o veículo dos contos infantis e das canções de embalar que são a matriz de toda a ulterior produção literária e artística. A raiz do melhor e do pior do que cada um bebe da paisagem onde nasceu passa, por ela, ao interior desprogramado do nosso cérebro. A mãe é uma autoestrada e é o respetivo tráfico. Muitas mães julgam ser, também, a sua origem e destino, tentam controlar todas as entradas e saídas e impedir qualquer desvio de um rumo que elas obviamente ignoram. Ter este excesso de mãe conduz a uma obesidade emocional: as crianças beijocadas a toda a hora, afagadas com a pedra-pomes da limpeza e da correção, abraçadas por um superurso de peluche fácil de desmanchar dada a sua lábil consistência sociológica, pateticamente estacionado ao lado da mãe. Pode acontecer o oposto: uma autoestrada fechada ao tráfico por onde o leite escorre num silêncio de sepulcro e um superurso granítico com dezenas de altifalantes pendurados vomitando sentenciosos duendes policiescos, mas este assunto é para o dia do pai. Muitas mães não permitem ao filho nascer, continuam toda a vida a envolvê-lo num útero sequioso; ele é um apêndice de uma apendicite eminente. Por isto, não adianta aqui falar de amor a propósito destas transações de recursos da mãe ao filho e do filho à mãe, pelo contrário, a placenta secou, os seus espinhos são livros apagados e o sangue que retorna à mãe vem envenenado, vento contaminado de um destino que não consegue começar. Contudo, a maior parte dos dispositivos maternos podemos dizer que funcionam bem se os avaliarmos pelo referencial corrente de normalidade biológica. Cada gestação com o desenvolvimento orientado pela mãe deveria ser cotejada por um dispositivo maternaloide alternativo que orientasse e optimizasse as funções progenitoras da mãe e evitasse a patologia do vínculo entre o organismo reprodutor e o organismo reproduzido.