Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

outra teoria da portugalidade

«À portuguesa» designa um estilo. Não vamos justificá-lo, tão só dar-lhe saliência – Portugal, tal como outras nações, têm padrões de relação com as coisas igualmente vincados que podemos estimar ou lamentar. O estilo «à portuguesa» é, meramente, a necessidade de sair da regra ou de a curto-circuitar para provocar uma rápida resolução de um problema que parecia insolúvel. Qualquer sistema, embora falsificável, se preocupa com robustecer-se, conta, sobretudo, com a honestidade e o civismo dos cidadão que o respeitem e protejam. Um português acredita nisto tudo como qualquer bom cidadão, mas, também, na crença complementar de que um batoteiro afoito não é apanhado. Em geral, as transgressões não alvejam normas tão só hábitos do pensamento. «À portuguesa» significa pôr todas as hipóteses e, à cabeça, rejeitar as habituais. Trata-se de uma alergia intuitiva que abre caminho às fraturas da racionalidade donde uma nova configuração pode surgir e ser aproveitável. Nenhum português acredita que se desenrasca com crenças mágicas ou morais simples nem com convicções causais lineares, antes por uma lógica de epifenómenos que reconfigura indícios marginais, e, improvável, faz a solução surgir magnífica. À monotonia chega-se por diversos caminhos, em Portugal é de difícil utilização. Causa a quase todos uma comichão irreprimível, começamos a coçar-nos, a abrir buracos que atingem a alma, ficamos tristes e nostálgicos se somos obrigados à mesma tarefa, acabamos por sucumbir. Provavelmente, este atributo da portugalidade não é uma caraterística céltica, nem moura, nem romana, nem dos íberos manhosos resistindo à civilização, antes uma marca do confinamento no extremo do continente: chegados aqui, não haver mais para onde ir; também, sem vizinhos simpáticos que nos estimem ou nos invadam, para quê sermos organizados? Mais vale um para-estado com uma para-administração que possamos divertir-nos a burlá-la.