Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

outro contributo para a defesa da democracia

Para cada circunstância, quando urinamos, há uma inclinação expectável do jacto ou até um arco que, só quando urinamos num abismo, atinge a verticalidade no momento em que a gravidade vence a propulsão do tónus uretral – se não houver vento. Há sempre contingências e a verticalidade, por definição, deveria ser imune às contingências; a verticalidade deve passar incólume e impávida perante a magnificência como perante as agruras. A verticalidade é um limite da obliquidade – precisa de próteses para se disfarçar numa pose vertical mantida com manhas pretensiosas. Durante a vida constrói-se uma posição e uma pose. O político diz enquanto urina: «Admirem-me, admirem-me e confiem em mim. A gravidade não afeta o que penso. Realizo-me resistindo e difundindo. Resistindo e refazendo para o voo o lixo que tomba – alto voar até se perder como um sonho temível». Ele apela para a nossa necessidade de confiar; nós apelamos para uma fiabilidade institucional que limite as suas transações submersas. «É a política, dizem os seus eleitores. Ganhar e perder são fluxos de vantagens materiais que sentimos com alívio quando reverte no nosso magro cofre, ou com uma sorumbática lástima quando drena uma riqueza pública abstracta. A verticalidade de uns erige-se sobre a horizontalidade que é a condição em que nascemos e morreremos. De permeio, o que fazemos senão ensinar a criança a urinar no penico e a controlar o jacto em nome de uma noção de limpeza que não explicitamos? Nunca conseguimos dizer impuro o interior do nosso corpo, mas é ele a raiz do nojo». Como educar a próstata diretamente libertando a criança da decisão de se submeter a uma ordem social que não lhe foi ainda explicada? Esta é a questão chave da verticalidade, e só deixando explícita toda a ordem material do corpo e do seu envolvimento numa matriz de contingências externa que determina a autenticidade de cada circunstância, o futuro cidadão poderá transcender os seus precários encantamentos com a vida, isto é, deixar de pensar nas suas oportunidades e refletir o planeta como um espetáculo direcionado ao bem. O leitor está desconfiado; sempre que lhe falam de bem pedem-lhe uma esmola ou aumentam-lhe os impostos, contudo, não se trata de silenciar o bem, mas de não o desgastar. Por vezes é preferível um político que urine fora do penico desde que tenha uma razão forte para o fazer. Pois um político em ereção não significa um político vertical; pode estar numa posição indigente ou até deixando-se arrastar pelas suas paixões de uma forma passiva e assumindo qualquer posição como num jogo da cabra-cega. Portanto, é importante conhecermos a situação da próstata de qualquer estadista que se candidate a um cargo democrático; ela contém uma memória quer da sua verticalidade (exclui a que não retunda, a persuasão do aldrabão e a virilidade verbal exibicionista), quer da sua horizontalidade (das suas práticas de suborno, alienação, indignidade). Na ausência dessa prostatografia pró-democrática, em qualquer intervenção televisiva ou eleitoral o político deverá começar por urinar a fim de demonstrar a sua verticalidade com a verticalidade do jacto urinário.