Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

paisagem com primeiro plano ocupado

Interessa agora especificar a que nível o amor é importante. Não vale a pena defini-lo como sentimento, mas como prática geradora de efeitos. Poderíamos também estabelecer aquilo que ele não é ou aquilo que o antagoniza (não consideraremos aqui o caso particular dos narcísicos nem de outras variedades de esterilidade mental). Assim dividimos a realidade em três campos: 1) a imensa paisagem da indiferença, coisas necessariamente neutras, que nem mesmo em atitude franciscana conseguiríamos amar, ou porque é ínfima a sua escala (o grão de areia), ou porque é efémera a sua presença (a vaga, a nuvem), ou porque é baço o seu aspeto (ou opaco: o fígado); 2) a imensa paisagem do interior do corpo, permanentemente latente, surda como uma bala perdida; e a imensa paisagem do corpo dos outros seres, ainda mais inacessível, que por vezes rebenta numa dor; então percebemos a sua expressão lancinante, mas omissa; ou a paisagem do prazer do outro, esse sobreponível ao nosso. Enquanto a 1) pouco ou nada reagimos, 2) desperta-nos uma empatia que não chega a mover-nos; pode, contudo, afastar-nos por pudor ou repulsa. O campo do desejo, 3), contempla a estreita categoria das coisas em falta numa paisagem a que damos o maior relevo. Pode ser impossível definir «desejo», mesmo com plena consciência do objeto que o sacia: não se pode partir da incompletude do corpo (tal como é absurdo o seu fecho), mas podemos declarar corpo aquilo cuja inclusão num organismo que age conjuntamente não suscita qualquer dúvida. Desejo, então, não é o que falta, mas o agente da passagem a um estado efémero de sobrecompletude, como se o ser fosse inconcebível fora desta dinâmica desejante. Na verdade, só na apoplexia do desejo o ser alcança a plena claridade sobre si. E, no entanto, turva-se para o prazer de desejar, turva a imagem de si; a sua energia foge da vontade e afunila-se; a ação, se não bloqueia num estado de tenso sofrimento, envolve o objeto do desejo num abraço que funde ou assimila. Esta oralidade do desejo exerce-se nas múltiplas expressões do amor e condiciona o progresso da atração para um vínculo imprevisível e, eventualmente, mais durável. Este processo faz aparecer a imagem do outro que sai da estrita funcionalidade saciante para um processo que exige um exo-crescimento, não necessariamente reprodutivo no sentido morfológico, mas criativo na sua maior abrangência. Pergunto-me se esta atribuição de enriquecimento ao amor não é um mero efeito semântico do sistema de acumulação capitalista (faço-o com a maior neutralidade e não consigo aplicar à questão nenhuma escala moral nem, tampouco, uma grelha sociológica suficientemente imparcial); digo criativo no sentido de uma produção sintética de algo cujo único valor material resulta da criatividade, i.e., o procedimento de, a partir de quase nada, atingir simulacros complexos de completude. Tal como o amor pode criar e alimentar-se das suas próprias referências, também aqui a criatividade gera os elementos que se conjugam, vinculam e se fecham num sentido, ainda assim, aberto e suscetível de reformulação. Se o amor conseguir o mesmo, então é importante a todos os níveis inferiores a este e a este nível depende da mudança que produzir – e da paz. Porque o campo semântico de «amor» se não inclui conforto e segurança, inclui uma confiança inabalável que, se se deteriora, a paz acaba, a insegurança grassa, a dor instala-se, a generatividade esgotou-se – o amor acabou. Mas não perdeu a importância.