Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

PANFLETO PARA-POÉTICO

As flores mais belas escondem, na simetria, venenos que existem por uma questão erótica (como o texto, para construir o pensamento). Na língua materna, a vitalidade solvente dos sons recria múltiplas mãos apenas como mistério. É a vontade (os insípidos abecedários da razão). Assim, a natureza joga com os ingénuos (os ingénuos jogam com o execrável) pois há muitos modos de ser execrável que os ingénuos nunca exploraram. Quando se avança (ou quando se recua) no passeio com os bibelots da compreensão sonora, os caminhos desdobram-se, muito arborizados. Cada pessoa quer explicar o seu individual heroísmo, contudo, é raro conhecer-se o essencial da pessoa toda, a minúcia das suas intenções (frustes, miríades), os devaneios que lhe encheram o tempo (a não ação, a inação) imergem num território defendido com espadas de fogo. Conhecemos apenas o desabrochar da beleza alucinada que surde da terra e reconstrói cada coisa como hipótese, uma massa narrativa de onde eminentes malignidades afloram. Na parte segunda do cérebro lida-se com as grandes possibilidades de cada coisa – e com as piores: ele elege inimigos abstratos, alberga-os, por lá dançam com os demónios. Cada pessoa tenta afundá-la e escapar-se para as colmeias vazias da língua. Dentro, respira-se um oco esmagado contra sinos adormecidos; a luz torna-se viscosa e aquiescente – nesse obscuro entendimento, tenazes evidências nivelam bem e mal, os respetivos combates continuam com uma fúria já sem substrato. É preciso inverter o jogo, trocar as palavras junto à nascente. É preciso da língua materna fazer um teatro pré-programado, limpar a sua matemática de augúrios, expurgá-la de memórias parasitas, restituir-lhe a grande completude dos fechos sinfónicos. Como os bichos usam as mãos, é preciso ter todo o pensamento sem ter medo – ter a perfeição da língua sem temer a imperfeição do mundo. Na alma de uma música já distante, imitar a verdade sem a sentir nem a pensar – só a sua poesia.