Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

para uma teologia abrangente

 

O velho sonho de pôr os homens todos a espreitar da mesma janela depois de passarem horas na mesma biblioteca realizou-se e começamos a experimentar os primeiros efeitos. Como um cardume enorme apanhado na rede, somos puxados para diante por uma força misteriosa, mas, ainda assim, estamos mais preocupados com o bigue-bangue «pois é preciso concretizar de uma forma sistemática o pensamento sobre Deus». Quando escrevi o esboço de uma teologia multiusos não dispunha de uma ampla rede de informação, por isso a obra resultou inconclusiva e julgo que nunca a publicarei. Hoje, vamos mais longe: um polvo é mais simples que uma sardinha. O próprio facto de os seus tentáculos pretenderem tudo agarrar nos sugere ser mais primitivo (não, necessariamente, mais ambicioso) do que a sardinha que escolhe previamente o que a saciará e deglute as coisas sem lhes tocar. Nós pensamos em Deus como os polvos, percorrendo todos os seus vestígios no universo como se Deus deixasse rasto na criação e pudéssemos reconstituí-lo. As supernovas e os buracos negros não interessam diretamente às sardinhas nem aos polvos senão como conceitos residuais; a lua, sem dúvida que sim; embora um astro menor, faz deslocar grandes massas de água que afetam a luminosidade, as correntes, a disponibilidade de alimento. Portanto, conceitos super-ordenadores como os buracos negros estão demasiado afastados da ecologia do polvo e da sardinha (pouco afetam a lua, mas ainda que a afetassem, não lhes interessam conceitos super-ordenadores) enquanto os homens, ao espreitarem pela mesma janela na mesma direção, disputam entre si a melhor explicação (a mais abrangente, ainda que pouco plausível, a mais irrefutável ainda que inevidente, a mais otimista ainda que sectorial, a mais consensual ainda que impensada) embora sem definir o que é a «melhor explicação». Na nossa época, multiplicaram-se as explicações, algumas francamente esotéricas como as que envolvem as supernovas e os buracos negros; afirmam uma consistência abstrata que nos faz encolher os ombros. Muitas pessoas pensam que, se o critério de «melhor explicação» é a capacidade de ordenar os fenómenos subordinados, de os recolher em todos os recantos do mundo, em todas as escalas fractais e de os reunir numa palavra que nos faça dormir em paz, um deus que permita alguma forma de religação, a quem nos possamos dirigir ainda que durma ou esteja imerso noutras preocupações, poderá ser a «melhor explicação», a que melhor serve aos homens que espreitam pela mesma janela e releem livros consensuais.