Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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PAVLOV E A POESIA    

Os poemas são como os rodopios do pombo na vertigem da sedução. O sedutor permite-se – e perde-se no seu ridículo. Sente-se ao serviço da hereditariedade, pomposo agente de uma política cujos resultados falta provar. Todos os poemas falam de conveniências semânticas, de afinidades raras e inaparentes, da dança das formas que querem explicar o mundo. O pombo anda à volta porque quer a pomba; um estadista anda à volta porque quer poder, anda à volta de tudo o que lhe proporcione poder, anda à volta das ideias se as ideias o puserem no centro do poder ou anda à volta sem ideias se já tiver o poder e as ideias se lhe opuserem. Portanto, falamos sempre de relações de conveniência: 1) na poesia, entre a luz sonora das penas de pavão com cio e um leito de ventosas húmidas como mil musas com cio; 2) na etologia do pombo, entre um alguidar cheio de espermatozoides explosivos e os delicados alvos de divinação eroticamente expondo-se e cerrando-se; 3) na política, entre uma cabeça ávida de admiração e uma multidão menos idiota do que parece que se entretém acreditando ou não acreditando no que lhe dizem; mas 4) também na poesia, um alguidar cheio de espermatozoides explosivos entornado num leito de ventosas húmidas donde mil musas desapareceram será liricamente lamentado; rimas de um asco político à política da admiração; 5) também à etologia do pombo se aplicam as categorias da sociologia política do estadista embora seja mais concebível um pombo conservador às voltas com o passado do que um pombo anarquista, necessariamente desprovido da retórica narcísica, assim, apenas contando com os seus espermatozoides explosivos; 6) ainda dos políticos diremos que eles usam todas as imagens da retórica como o pombo seduzindo, mas os altifalantes e a imagem tele-transmitida dão à poesia do político a dimensão de um alguidar de espermatozoides contaminando o leito das multidões, obscenamente. Estes exemplos de relações de conveniência semântica devem encorajar-nos a resistir ao niilismo como se nada houvesse para defender. O poeta e o pombo defendem uma ideia de ordem translata como um andamento sinfónico assobiado, pelo merceeiro enquanto o político parte da própria vertigem da palavra erotizada pelo afã de domínio e nunca sabemos se não acaba a vomitar porque, no fundo, é um patriota e é humano. Nós, também patriotas, devemos construir o que defender, não apenas a pátria, não apenas a poesia.