Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

pensar a Europa I

Quando tentamos usar a filosofia para pensar a Europa, o que nos ocorre é a filosofia produzida na Europa como se o champagne e o foie gras só pudessem ser saboreados em Bordéus e não para comemorar o ano novo chinês. Particularizando, para pensar filosoficamente na Europa é preciso que «O Riso» inclua as gargalhadas dos esquimós, que «A República» se aplique ao Urzebequistão e às outras repúblicas ex-soviéticas, que as mónadas de Leibnitz voem por todo o cosmos com a sua mensagem de completude. Mesmo Bertrand Russell que dissertou sobre «A Última Oportunidade do Homem» não se referia apenas ao homem europeu como sapiens acabados de chegar do Benin. Não, a questão da filosofia na Europa são as suas extrapolações universalizantes: as circunstâncias em que as coisas são verdadeiras e utilizáveis não é como partir para umas férias exóticas no Butão. Provavelmente, alguns conceitos são universais, ainda que publicadas na Europa, enquanto outros, os de Darwin, por exemplo, podem só servir nas ilhas Galápagos. A questão filosófica importante é que a filosofia não as distingue. Quando julgamos intemporal uma filosofia e admiramos devotadamente o seu filósofo, descobrimos as suas fraquezas infantis, ou uma inclinação sexual suspeita, ou descobrimos no que escreveu o rasto de umas obsoletas crendices que representam um lastro atávico, como se uma cauda nos reaparecesse quando deixámos há muito as árvores. Depois pensamos com tolerância que todas as pessoas acumulam um conjunto de decisões erradas a que chamam «experiência». Os filósofos disfarçam-nas ou envolvem-nas num jardim francês cheio de claridade, mas que é um labirinto sem saída. Por isso, não há alternativa senão destruir as suas obras. Por outro lado, em alguns países europeus nunca se escreveram filosofias e agora pretende-se recorrer a uma filosofia oportunista para pensar o destino. «Filosofia oportunista» é a que chega a resultados convenientes por um caminho ínvio, reconhecido como ínvio, mas aceite pelo resultado que deve proporcionar. A Europa é um conjunto democrático que a burocracia estreita e metastisa a ação. O cidadão preocupa-se, quer pensar a Europa e procura uma filosofia que crie os pressupostos: 1) desde logo, de uma Europa que se saiba pensar (subjetiva e objetivamente), 2) de uma Europa em continuidade com a Europa (com o que é obsoleto e com o que é magnífico), 3) de uma Europa que se estime como Europa (a sua cultura, capaz de englobar todas as hetero-culturas não hostis que a habitem), 4) de uma Europa que se saiba fazer (sem dialécticas otimistas, nem niilismos pós-românticos, neo-românticos ou hiper-românticos), 5) de uma Europa que se refaça (sem que voltem a acontecer as grandes guerras do passado), 6) de uma Europa que pense os seus poetas, os seus piratas, os seus anti-heróis, os seus estadistas (os seus crimes e as suas glórias e se orgulhe pois tem razões de sobra), 7) de uma Europa altruísta e responsável (mas não ingénua ou lorpa), 8) de uma Europa que siga as razões das coisas (e resista às manipulações retóricas), 9) de uma Europa com uma moral translata (porque possui um coeso núcleo central), 10) de uma Europa pensada para as pessoas (porque tem sido assim cada vez mais), 11) de uma Europa que produz filosofia (mesmo que nenhuma utilidade aparente ter), 12) e que produz arte (porque a arte sublima, mesmo que o sublime não seja compatível com o quotidiano), 13) de uma Europa que leva a mal a javardice (haja ou não razão filosófica para ser javardo). (Tema a continuar – gostaríamos de poder dizer «tema em progresso»).