Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Plotino: para uma teologia matemática

Os textos deveriam sempre começar por especificar a época e o local. Exceto a matemática que é uma axiologia da arrumação que relaciona cada minuto do tempo com todos os minutos anteriores e com alguns dos minutos do futuro mais viáveis e relaciona cada centímetro do espaço com todos os centímetros contíguos. Tanto para baixo como para cima criam-se planos de verdade que usam estranhas simbologias. Refiro-me à topologia da inconsciente, latente em todos os textos. Não só numa autobiografia ou num livro de poesia; até um livro de receitas, ou num compêndio de matemática, ou num livro de poesia, ou, em particular, num livro de orações. Este deverá especificar o local e época em que Deus existiu e onde foi louvado. Deus está em toda a parte enquanto os homens mudam inopinadamente, mudam, também, a sua forma de orar. Há épocas em que, malgrado a penúria, a humanidade nada pede senão tranquilidade e paz; noutras, a humanidade torna-se pedinchona e pede tudo sem limite de crédito. Nas fases melhores ela desata a sentenciar sobre as caraterísticas divinas: tanto fala do UM à semelhança da matemática e de como o um dá origem quer aos números positivos que se multiplicam indefinidamente e deixam conter na sua substância tudo o que existe, quer aos números negativos que são a contagem das coisas que morreram ou que já não existem. O nada é um conceito atípico. Até pode não existir senão de forma abstrata, por exemplo, dizendo Deus ser tudo o que desconhecemos, tudo o que não controlamos, tudo o que nunca poderá existir. Por isto são simpáticos os textos dos apóstolos que começam: «Naquele tempo, em certo lugar» o que deixa entender que em diversos outros lugares, antes ou depois, outras coisas aconteceram sujeitas a outros sistemas de crenças. Apenas a matemática é instável através do tempo com se do seu valor absoluto decorresse a ideia de Deus criador ser susceptível à pieguice humana.