Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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POEMA PARA DESAPARECIMENTO AO PIANO    

A égua transparente e dúlcida que aparece combatendo na pintura de Rafael quereria ser um símbolo feminino de pujança? ou é, apenas, o olhar do construtor de luas que, em levitação pelas tempestades, se delicia na escrita? Colocar a lua no dorso da égua, trata-se, de facto, de uma idealização abusiva. A poesia dispensa hipérboles quando a noite é uma caravela de olhares vendados. As luas passeiam pelo jardim dos suspiros e das convulsões que atravessam os géneros. Mas falemos da personagem feminina; ela faz as estrelas dos mapas e o rumo dos poetas em alpinismo pelas suas escarpas e abismos, ela detém o lixo decorativo do poema e diz o que passa: a energia abissal, a terrível entropia de um heroísmo desorbitado de Deus, de mim, da poesia que a pairar se vaza, a pairar entulha o feminino de mim com o mel da incompreensão – palavras de contar histórias, noite dentro à escuta de indícios. Ela é a imagem que me interroga sobre um tempo que não limita, um olhar que não trespassa, que, no sigilo inlocalizável do poema, regista os seus próprios murmúrios. No polo oposto, um desfiladeiro onde jaz um deus escavado no pó, abrem-se as fenestras, os espiráculos, os telescópios que triangulam a mente do construtor do negro. Dentro do instante, puro sangue na mímica do salto, o poema sangra sobre mim: voa o mito, voa mais alto, parede acima com a labareda solta. Na mímica impossível do fogo, ou no simulacro de outra coisa que sossegue o poema, a mente dorme num verso que me substitui na caravela que parte como se fugisse com um deus raptado e o desejasse. Mas não é desejo esse rompante, mera cólica de um panorama mais amplo, de absorver o céu que nos oculta as cinzas do céu e ser exterior como o céu. Voo e eco do poema já prestes a desaparecer no alto: repeti-lo como se lavra um campo com uma égua transparente, depois, esquecê-lo ou deixá-lo estilhaçar-se como questionamos no amor a matemática do belo com os seus faisões e orquídeas efémeras.