Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

POETA INDULGENTE NA FASE ORAL DA SUA POESIA  

Por vezes, o caramelo agarra-se aos dedos e temos de procurar uma razão séria para não nos suicidarmos. Estamos perante uma configuração crítica das coisas: as razões encavalitaram-se numa Babel de imagens de terror. Pensamos na heurística muito ativa que nos transformou num mero espelho do terapeuta. Ficámos no seu devaneio: o seu outro sendo nós (e ele) a nitidez da falsidade democrática que reside no eu. Nos piores momentos come-se chocolate com gula de um herói paleolítico à procura de mulher. Alguém que, na sua gruta perdido, reúne-se na sedução de um discurso direto sobre si próprio. Por exemplo: «Abandono-me às palavras, miríades de pássaros que o vento revés da cidade insufla. Desmancho-as como instrumentos de fratura, de trepanação, de resistência. Sou, no seu ninho, a eloquência da metáfora. Sou mapa sem rumo – abertura e epígono de um poema versátil onde sou o seu continente vazio, o seu caminho invisível». Pode-se deixar a sessão acabar sem se tentar uma conclusão. Qualquer que fosse, seria construir o mundo a partir de uma lua idealizada, nem máscula nem feminil, sem pai nem mãe, nem terra, nem forma, nem sombra. Teria a duração do olhar que se despede, que desistiu de encontrar. Resignamo-nos a uma solução asténica: com os dedos peganhentos, não os lambemos, não os lavamos, vamos espalhando dedadas pelo mobiliário, pelos livros, pelos instrumentos que agarramos e logo largamos porque estão peganhentos. As hipóteses que pusemos irão falhar. Arrasada qualquer possibilidade de retorno (seria um final que se alargaria a tudo; nenhum poema pode encerrar com um tal excesso de doçura por remover). De qualquer modo, já não acreditamos numa autenticidade primordial. Nem acreditamos que o poeta se pretendia suicidar quando partiu para o deserto como um vulgar negociante de armamento.