Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Pola Ta Deina

POLA TA DEINA   É mais difícil a um português dizer ao que está do que a outro europeu. Estes têm uma consciência mais recente das peripécias do poder, não perderam a memória da fome e das vergastadas nem a da glória. Aqui as razões esvaneceram-se. As lendas, a repetição distorceu-as e aplicam-se, hoje, às coisas práticas que nos fazem falhar. Esvaneceu-se, também, a narrativa das deambulações. Em poucas famílias perdura o princípio da história; na maior parte é uma memória escura de gerações cada vez mais apagadas até desaparecerem num fantasma barbudo e descomposto. A cidade onde se mora oculta uma aldeia enfronhada nas serranias onde as minhocas e as águias, os lobos e as perdizes representam formas de adaptação que as pessoas copiavam conforme as fases da vida e as circunstâncias. Um poeta raramente diz as palavras certas. É preciso conhecer o que nos é estranho para podermos reconhecer a nossa intimidade, é preciso sentir a irmandade com a vida para perceber a sua intrínseca perversão, a nossa surpreendente capacidade de magoar, de espoliar, de matar, simplesmente porque mudou o ponto de vista e o que antes parecia uma pátria quase orgânica, alegre e festiva, num instante, como se um supremo árbitro declarasse aberta a caça ao infiel, ao desviado, ao degenerado, ao colorido e ao descolorido, essa diferença originasse o caos do mundo e tivesse de ser eliminada. Teodoro Adorno foi um músico português que acompanhou Luís de Camões na apresentação dos Lusíadas no paço real em 1572. Não eram artistas radicais, contudo visionários intensamente empenhados na sua época, ambos se preocupavam com o processo de decisão em política e usavam a arte para, de alguma forma, antecipar a hipótese de uma catástrofe. A música de Teodoro retirava das forças sociais da época a melodia e o ritmo delineando as linhas abstratas do destino. Desenovelada, o seu emaranhado quotidiano atingia as tendências nítidas do progresso, a sua evolução até uma sociedade futura pacificada e igualitária. Era no que acreditava. Camões aplicava este mesmo estruturalismo dialético à história da pátria – a epopeia, contudo, era para ele mais um esconjuro de um processo decadentista que sentia decorrer de uma ação intoxicante do solo pátrio sobre os homens. As emanações do orvalho ainda antes do despertar excitam um individualismo destrutivo que põe cada um a tentar enganar o irmão, o primo, até a avó inválida que amealhou umas moedas e esqueceu onde as guardou. Todas as alianças, até uma simples descoberta do caminho marítimo da Europa para a Índia, gera a irresistível tentação da batota. E compreendemo-nos todos e desculpamo-nos todos porque somos pobres e vamos à missa e, uns mais espertos que os outros, somos sobrinhos do chefe da polícia. Camões era melhor poeta que os outros, mais capaz de inventar o funcionamento coerente de uma língua, por isso, percebia melhor a impunidade que o risco e foi preso várias vezes em descarado abuso. E apaixonou-se como se acreditasse conseguir paz e harmonia numa serena relação de desejo: Dinamene seria «Tin Nam Men» ou «Dona Catarina de Meneses» ou a sombra de uma ninfa, Natércia, Lycoris ou Galateia ou seria a própria Violante que, enquanto sombra, terá estado por trás de todas. Ignoramos. Poderíamos distorcer a vida do poeta e romancear um Camões de opereta como o Saraiva. Podemos imaginá-lo aborrecido em Goa, as longas conversas com os seus amigos Fernão Mendes Pinto, Teodoro Adorno e Diogo de Couto, este último muito cético em relação à sustentabilidade do império. Concordavam que esta noção trágica da história caraterística dos lusitanos envolveu a pátria em ciclos de glória e catástrofe e iria, previsivelmente, agastá-los ainda em suas vidas. Teodoro, o mais otimista, talvez pela ascendência judia, acreditava na dialética do progresso, enquanto os outros viam a «pátria metida no gosto da cobiça e na rudeza duma austera, apagada e vil tristeza». Camões é um estereótipo português; não tanto por representar a excelência e a pior indulgência lusitana, mas por o pior, nele, destruir o melhor deixando-o na miséria e à D. Ana que passou a vida com homens em partes estranhas ausentes, que pouco lhe trouxeram além de narrativas de aventuras viris. Ao que foram e o que é a pátria que os fez partir, perguntava-se. O que é a glória da pátria senão o pretexto do risco? Perguntavam Diogo e Teodoro; Fernão respondia-lhes a glória ser vencer todos os limites da pátria, encontrá-la e perdê-la como no amor. Luís acrescentava a pátria ser a mãe dos versos, mas que o mar tudo leva.