Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

POOEMA  

Advertência aos poetas irónicos: «Que tenham cuidado com a cabeça, tão desprotegida e racional. Tenham-na num estado de desejo absorto, presa a qualquer luz precária e que nada derrube o vosso sorriso florentino». Continuando em formato de admoestação: «É fácil criar um acontecimento com esses argumentos rastejantes próprios da imaturidade». Resposta de um poeta racional: «Insisto em redefinir «facto», uma democracia de estranhos movimentos recorrentes distinta do meu olhar ou do lugar onde o inscreva. Acompanha-se de um gráfico de probabilidades difícil de interpretar a partir do qual se atribuem adjetivos». A voz que advertia, agora amigável: «Digo-vos perceber bem a suprema catarse de puxar repetidamente o autoclismo: quase todos os movimentos sofrem o impacto da sua própria realização. É isso um facto, solene quando, contemplativos, o isolamos, cruel se desaguamos na sua anatomia: a sintaxe do conjunto desespera, a arquitetura de encaixes compulsivos onde assentamos os pés desengrena-se». Respondem os poetas de géneros vários: «Por isso te dizemos, tudo deveria ser imóvel e controlado como um guarda-fatos, e imperecível como a beleza instantânea de uma criança». A voz: «Deixai o que possuís, isso que se bamboleia entre sorrisos sedutores». Já em plena queda, com a cabeça quase partida e a respetiva perda da consciência, ainda nos surpreendemos com o que foi a nossa vida intra-poética, integralmente à margem de uma definição de «facto», ainda assim, os factos tão filmicamente montados e inconclusivos. Esperemos que se mantenham, intimamente na cabeça, tão desprotegida e racional.