Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

POR VEZES É PRECISO RECORRER A EXPLICAÇÕES DE VÁRIOS NÍVEIS

  

Um filho pode abandonar-nos.

Diversas configurações de mitos exemplificam como as leis do universo se tornam simples e capazes de afundar uma esquadra de porta-aviões ou arrasar uma cidade igualmente invulnerável.

A pergunta inútil é «porquê?».

Esbarramos sempre numa causa final que contém o princípio da vida e esse momento remete para milhões de anos atrás quando os estratagemas se delineavam.

Antes, eram rochas, a euforia do embelezamento das metamórficas, as magmáticas mal recompostas da ação inesquecível do fogo, as sedimentares que louvavam o tempo como testemunhas de uma fé falsa.

Não sabemos como a ordem inverteu o efeito da complexidade, mas é porque um filho nos abandona:

o crescimento fez com que poucas espécies escapassem da violência e do assassinato.

Por isso devemos aceitar a monstruosidade que é os pais não se aniquilarem, não se pulverizarem no estrume volátil dos roseirais.

Os filhos nascem como um planeta rebenta e julga criar as próprias leis, julga-se percorrer um caminho que cria maior complexidade e que esta é uma razão para exterminar o que fica para trás.

Porque um filho atinge, necessariamente, um nível de perfeição que antes não existia e, se nos chama monstro é porque ele atingiu uma beleza e uma bondade que já não nos consegue tolerar, e se parte e se esconde é porque dentro dele há uma nova monstruosidade que se quer fundir, talvez com uma montanha, com uma vaga, com uma locomotiva fantasma ou com uma nuvem sem forma nem outro destino que afastar-se de uma origem demasiado obscura, de um tempo demasiado espinhoso, de um lugar desabrigado onde uma riqueza atabafada confluiu e esta definição de perfeição centrada em si justifica destruir o que abandona.