Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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PROLEGÓMENOS SOBRE O BELICISMO E A GUERRA  

Em muitos casos, quando queremos falar do «humano», mencionamos Alexandre, o Grande e não o atual rei de Espanha, mais próximo de nós, ou mencionamos Sócrates e não Platão nem Aristóteles ainda que este tenha sido professor de Alexandre. Isto mostra como a simples menção contém não só o gérmen do erro, mas o aleatório da linguagem que repousa na ideia que cada falante tem da humanidade. Isto porque, como em qualquer facto histórico, a ideia de «Alexandre» é variável de pessoa para pessoa. Uns dirão o grande conquistador, construtor de cidades, outros lembrarão o homem culto que quis expandir a cultura helénica e destruiu a civilização persa ou qualquer outro detalhe biográfico de Alexandre que, sendo verdadeiro, poderá ser mais ou menos relevante. Ora o juízo de «relevante» é, também, variável. Podemos referi-lo ao que está descrito numa enciclopédia, mas o descrito numa enciclopédia difere do que está descrito noutra. Os filósofos contemporâneos, aqui, apelam, democraticamente, ao consensual confundindo o problema da verdade ontológica e o da verdade comunicacional, enquanto os outros filósofos do passado apelavam a Deus e resolviam o problema com maior força, embora, mais uma vez, o deixassem suspenso na própria contingência divina ou como se o problema não pudesse ter uma solução que permitisse aos ateus falar com os crentes, ou como se fossem modos diferentes de ser humano. E são-no superestruturalmente. Um mérito de Alexandre foi a difusão de uma cultura sofisticada nas zonas dominadas, ou seja, de um modo de pensar o humano e de viver essa humanidade, embora, como qualquer outro grande conquistador, ele possa ser visto como um vulgar ladrão numa escala tal que afeta os próprios fazedores de opiniões e de valores. Já não se trata de, meramente, vencer, saquear, escravizar, dominar, como muitos outros ladrões com os chefes de bando um pouco mais espertalhões que os outros bandidos. Quando os bandidos se dizem soldados, suspendem o respeito pela vida dos outros, metidos num grupo organizado para matar, desresponsabilizam-se dos morticínios, instalam-se num referencial de grupo que autoalimenta a sua disposição a invadir com uma violência ilimitada. Há nobreza nisto? Cito Santo Agostinho embora discorde da descontextualização etológica da agressão que, embora sendo apanágio de qualquer cultura eliminá-la, há situações em que a dissuasão pela força é o último argumento a que recorre quem julga ter razão. Criar uma solução transforma-se em aniquilar a oposição. Dizemos «É humano» ou, pelo contrário, dizemos «Trata-se de uma horrível selvajaria». É preciso retirar ao outro alguns atributos de «humano» para o atacar, é preciso retirar-lhe, pelo menos, a razão e a nobreza que são virtudes multifacetadas difíceis de argumentar. Por isso, as nossas razões são sempre mais nobres que as dos outros.