Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

psicotransformações

Pretende-se descrever as atuais soluções de bioengenharia, neurocirúrgicas, neurofarmacológicas e outras para uso dos cidadãos normais que se queiram modificar transitoriamente ou escolher como otimizar o seu funcionamento (ou como se entorpecer, ou como entrar num letárgico prazer) ou como lubrificar as suas relações sociais, designadamente, o amor ou como evitar derraparem para serial-killers ou tornarem-se mártires sociais por uma utopia a inventar. Ou, de uma forma engenhosa, colar uma prótese de uma imensidão indefinida: tudo o que se sabe apenso ao corpo e à mente. É inútil pensar na legitimidade destes procedimentos: em formatos porventura menos potentes, sempre existiram, não estes todos, não todos estes em todos os lugares, nem tão disponíveis, nem em condições tão propícias à sua utilização e abuso, mas aqui e acolá, um ou outro existiram sempre. Também não defendemos o primado da natureza sobre este edifício de opções que oferece a cada humano a vertigem do seu próprio encurralamento. Na verdade, pertence à lógica do sistema nervoso andar à procura e encontrar. Encontra porque ignora o que procura e não definiu o que o sacia. O que o sacia é cada vez mais procurado porque sacia uma fome nova, inventada para ser repetida até que o jogo tome conta da vida. Não se trata simplificadamente do prazer nem da dor, mas de constelações de propósitos que se intrincaram numa forma de vontade para que não estávamos preparados, que começou: 1) num amor simples ao que turva, 2) ou numa lucidez de triunfador, 3) ou numa titânica resistência em combates inúteis, 4) ou na fraternidade íntima dos frangos num aviário, 5) ou numa redução da normatividade para níveis não angustiantes, 6) ou numa experiência da psicose, do informulável senão como a total irracionalidade, ou 7) na experiência da alienação numa rotina escrava que preenche toda a necessidade de absurdo como um teorema do fim do conhecimento, 8) ou numa sucessão de desafios à sorte e ao azar, à perícia e ao erro, ao controlo e ao caos, ou à morte quando a vida é uma contingência entre outras, 9) ou numa exploração do mundo iniciada na selva do corpo – por pura curiosidade. Se o que se procura é o descontrolo, poderão as novas tecnologias do prazer, irracionalizar a mente com uma intermitência garantida? Para isso, escolhida a prótese, o respetivo agrado terá de ser desacoplado da circularidade das aprendizagens, o uso desenvencilhado da impulsiva repetição do uso, cada dispositivo deverá possuir a sua própria inibição controlada pelo usuário. Assim, cada pessoa reversivelmente se transformará em segurança como programa de fim-de-semana. Enquanto isto não for possível, vicia-se.