Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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raciocínio cego

Um sistema solar miniatura estabilizou a sua entropia e acabará por nos aborrecer quer o habitemos com as nossas ideias também miniaturizadas quer seja um modelo da nossa realidade onde possamos ensaiar cenários futuros. São estilos de vida em que as ideias são miniaturas das coisas e quando as palavras lhes chegam, partimos para o ginásio com outra disposição. Elas dão-nos a possibilidade de falsificar até a um limite em que as ideias ficam pouco plausíveis ou passam a corresponder a outra coisa. Por exemplo, removendo alguns planetas desse sistema solar, muitas pessoas não dariam pela falta, contudo, a perturbação electromagnética resultante provocaria uma agitação neuronal com manifestações imprevisíveis, ainda assim, continuaríamos a querer adaptar à nossa ideia um sistema solar que se tornou outro. Há teorias assim, tal como no amor há uma probabilidade de surgir qualquer coisa parecida com a felicidade a qual, depois, se esfuma sem que isso implique qualquer rearranjo global nem afete o nosso modo de vestir, ou de puxar o autoclismo, ou de nos abraçarmos depois de meses sem nos encontrarmos, ou outra manifestação de estilo. No entanto, o amor é afetado por pequenas circunstâncias que são imperceptíveis noutros domínios o que prova que somos muito mais sensíveis às salmonelas de um ovo estragado do que ao desaparecimento de um planeta; os neurónios não conhecem o amor do mesmo modo que nós: o sexo miniaturiza-nos e, se o amante desaparece, no cérebro, representam-se dezenas de encenações catastróficas que podem causar múltiplas respostas: 1) um pranto desasado com eminente queda do ninho, 2) a queda intencional do ninho, 3) um alívio inesperado como a cura de uma artrose ou da gangrena, 4) um lento descalabro existencial com ou sem alcoolismo, 5) uma mudança de vida radical: depois de uma tentativa de suicídio frustrada, a pessoa suspende o choro, parte para outro continente, muda de profissão, esquece o desespero, passa horas a olhar os astros, descobre a astronomia, como a matemática o agiganta na medida em que miniaturiza o seu desespero. Julga ter vencido a entropia e o aborrecimento e estar preparado para muitos cenários futuros. «Vamos a ver, logo se vê», é o que responde o cego quando lhe perguntam por cenários futuros.