Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

REFERENCIAL  

Por vezes sentimos que determinada presença representa a incongruência essencial que é a nossa própria presença num lugar: a incongruência da paisagem connosco e a incongruência com ela mesma nesta recomposição abstrata e inútil que é quase toda a literatura. Numa cerâmica chinesa ou grega ou numa tela barroca surge, por vezes, uma figura implausível demonstrando-nos como a improbabilidade organiza a natureza; como a nudez se ritualiza, até quando os cedros se despem ao vento e os carvalhos sibilam enquanto, rápidas, as nuvens saltam de um tempo a outro e é luz o seu ânimo. Dorso de fugida, táctil promontório de um vulcão extinto, memória de fogo domado, de oceano vencido: ferro e seda, o vestido solto no decorrer do salto sobre bandeiras queimadas. Essa presença. Porque a nudez é um estado de confronto, uma pertença esforçada à paisagem, uma entrega ao largo voo sobre uma matriz de destinos traçados no verde calcinado do poente – turvo e rápido caleidoscópio sem simetrias nem andanças da luz curva saltando de estrela em estrela. Pelo odor a memória faz-se aura. Antes a casa total: a edificação da presença sobre a sombra morta; a energia deixada cresce ainda. O que é possível não é imaginável, e vice versa. A memória é a ânfora de titânio que vadia pelo espaço entre as estrelas cujos biliões de anos passados nos iluminam. Sempre uma presença racionada e letárgica relampeja nas mãos que a imaginam. Essa que oclui as soluções nos tubos mágicos da verdade. Da consciência grave os leves átomos do acontecer escapam-se. Nenhuma viagem faz acontecer se desde o início não nos dispusermos à lassitude numa fecunda e porosa desideação. Assim, essa presença e a minha são igualmente improváveis. Igualmente improváveis como figuras humanas naturais e mecânicas se anunciarem numa noite de luar: «Eu resolvo», insistem umas e outras enquanto os ratos simbolizam o nojo. Falávamos de critérios estéticos – a incongruência.