Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

reflexão sobre a confiança

Entramos no futuro entorpecidos. Foi ultrapassada a nossa capacidade de compreender, mas não damos grande importância ao que falha. Aparentemente, ainda assim, o futuro acontece e é difícil julgar se, de outra maneira (sem que nada falhasse), seria um futuro melhor. Ao nascer a maior parte de nós desenvolveu uma confiança ilimitada no sistema. É uma espécie de condição biológica básica que raramente desaparece mesmo que passemos por dramas absurdos (não os dizemos kafkianos pois, graças ao seu pai, Kafka teve uma vida previsível e confortável) e imponderáveis que provocam um insuportável incómodo. Confiamos que não morreremos asfixiados numa atmosfera poluída, nem intoxicados pelo mercúrio como o peixe-espada e o tubarão, nem vítimas de um inesperada guerra nuclear (ou convencional que seja), nem à fome, e esta confiança não nos abandona por muito assustadores que sejam os alarmes que nos chegam. As ameaças tornaram-se sistémicas embora ninguém vá disparar mísseis contra as Lages do Pico ou contra Ísquia ou contra Paris, Texas. Não são objetivos militares, mas para cada circunstância e para cada local existem hoje ameaças próprias, até a Paris do Texas pode ser alvejada por mera continuidade semântica com a Paris original, Ísquia, pelo valor da simbologia cristã da morte que as clarissas levaram ao limite. Ainda assim, não encontro nenhum pretexto para bombardear as Lages do Pico, mas o nosso cérebro descobre significações sempre que carece delas – segue-as e bombardeia seja o que for. Assim os riscos generalizaram-se; as guerras não são simples desentendimentos, nem são sequer confrontos de opinião entre ideologias ou culturas, são estados de alma em que perdemos a paciência como quando um mosquito nos sobrevoa durante a noite e resolvemos, enfim, aniquilá-lo. Haver armamento e exércitos favorece a eclosão de guerras locais, não empatizar com o mosquito que nos mordeu transforma-o em adversário não queremos compreender o porquê destas atitudes. É demasiada informação – distrai-nos dos dramas do que na humanidade falha.