Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

regresso à primeira paisagem (o Ganges)

Os primeiros piões foram os deuses anões que manobravam o destino atómico sem detetar o momento do erro. Não eram deuses perfeitos. Imaginamo-los ufanos, como Narciso, com toda a consciência à flor da pele, acordarem entorpecidos da longa noite prolegómica dos símbolos. O nosso olhar vaza-se numa perspetiva impenetrável – deciframos a repelência positiva do ser. Num instante a carga do ser contradiz-se, o gesto divide-se e a experiência do ser num auto-aplauso se perde. Assim, os deuses anões foram as migalhas preliminares do ser que com os piões, equilibraram o sexo cósmico a partir do ínfimo. Ou como micro-Cúpidos, pois foi preciso refazer todas as atividades divinas, inventar consoantes e amá-las antes de encarnarem nas palavras. Antes de passarem pela matéria insondável, pelas suas teorias físicas implantadas no opaco do espaço: desde logo forças que se atraem e forças que se repelem como códigos de sedução à escala cósmica. Depois, a vida violentou a simplicidade das moléculas, como o boi que cobre os animais sagrados, ao aparecer instituiu-se, autonomizou-se, perdeu significado o ardor da posse: cada ser na sua própria descrição. Quando os bezerros fogem da mãe, dizemos ser como o amor essa ingratidão, hoje, mera necessidade de gato ao colo que, lambendo-se, nos olha. Sabemos confundir calor e ração, mas parece amor enquanto o torso de elefante que desce o Ganges decapitado não nos deixa alegres. Surdo sujeito na frase que soterra é isso a morte, o insólito da descontinuidade numa massa de ameaças que cresce em nós. Deus perdeu os ouvidos no rio – procurávamos a única força que nos escutasse. Face à sua lassitude, multiplicamos os nomes, multiplicamos os profetas, aclaramos-lhes a voz e da voz retiramos a geometria do destino – e da perfeição. Espírito, doutrina da simetria, do lótus tripartido que o gesto mimetiza e falha, tudo confirma os micro-episódios da perfeição. Às vezes, fechamos os olhos e tudo desaparece, outras, é no cosmos intensivo do sonho que os cometas embatem e dizemos ser o muro dos instantes o presente abstrato desse espanto. Sabemo-nos no lodo do olhar encerrados, réptil e símio rodopiam numa sintaxe astronómica e, se falarmos, a saudade vaza a alma dos seus distraídos habitantes. A anterior claridade desdobra-se em memórias impartilháveis. Face a face, estupefactos, esperamos que reajam: deitam-se e urinam como cães amedrontados: «Tenho que aplacar o símio de mim. Ataca-me automaticamente mal me pressente – procuro uma razão e encontro-a: sangrar excita-o; contém a civilização negativa de um elefante decapitado. O seu lugar-comum pertence-me tanto como a todos». É uma imagem, a fronteira quase desaparecida de uma precária eternidade porque a total eternidade pertence a um ser impossível de amar – e indestrutível na linguagem indestrutível que nos cimenta. Retribuímos os telescópios muito nítidos da poesia porque nesta nova ordem de razões voltamos à monarquia pré-socrática e, quando, na lareira à noite, refizermos a opereta das invejas olímpicas, o ADN divino crepita no poema, nós salvos e desinfetados.