Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

RELATÓRIO  

Ao fim de um ano a observar o que não acontece, conforma-se uma ideia de como o que poderia acontecer conduziu ao que aconteceu e não a versões otimizadas do planeta nem a situações de felicidade individual. Não se pode falar de uma determinação causal, mas também não se aplica a noção de «acaso» no sentido em que este designa meramente acontecimentos inesperados (coincidências, coocorrências, inflexões agudas numa linha de eventos conduzindo, por exemplo, a aparições e a ausências de pessoas quase definitivamente presentes e ausentes). Mas o que poderia acontecer num certo instante configura uma série de cenários previsíveis dos quais apenas um aconteceu. No instante seguinte o que acontece já é determinado por esse acontecimento e sucessivamente, donde o interesse da palavra «acaso» para designar um processo poroso, permeável a variáveis que não pareciam presentes no início. É através da ambiguidade da atribuição ao acaso de um determinado efeito que chegamos à esperança e ao desespero: à esperança porque o acaso pode viabilizar as hipóteses mais remotas de acedermos à fortuna e ao amor; ao desespero porque essas hipóteses raramente se verificam. O interesse de pensarmos o que não aconteceu releva da maior nitidez com que pensamos o acontecido: vemos como o que não aconteceu nos envolve: 1) porquê e como falhámos em fazer acontecer um cenário que desejámos? 2) Quais as forças que nos derrotaram? 3) Se a intensidade do nosso empenho fez aumentar a probabilidade de ocorrência de um cenário? 4) Como é que a vida (a nossa) se ajeitou a tantas contingências? 5) Como é que conjugámos a nossa impotência com a ideia de liberdade e, 6) com a de responsabilidade se não é racional a nossa ação sobre o que acontece?, 7) Faz ainda sentido ser obsessivo-compulsivo e planear o futuro como um funcionário público híper-responsável? ou 8) como fazem os políticos híper-irresponsáveis, será preferível deixar correr as coisas pelo mais fácil e mais conveniente e acreditar que, no final, a sua retórica banha-da-cobra se somará à vontade de cegueira do eleitorado? Ao fim de um ano a escrever sobre o que não aconteceu reconhecemos um único ganho: o próprio facto de termos pensado o que não aconteceu, de termos rido do que aconteceu tal como rimos do nosso desejo de que acontecesse o que não aconteceu, e de o termos feito num pequeno coletivo como se nos embebedássemos de sabedoria, juntos ao balcão da taberna.