Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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Podemos definir um grande poeta como alguém que nos encanta falando de qualquer assunto sem o conhecer. À volta da sua música podem dispor-se as outras coisas, as que conhecemos e as que apenas usamos sem pensar, como a lua que aparece grandiosa e torna sub-reptício o discurso das coisas. Ela molda o nosso cérebro para que a poesia nos convença, nos embale, nos leve para algum lado ou nos dê a ilusão de que esse lugar existe. Porque o nosso cérebro tanto quer conhecer as coisas de que fala o grande poeta, como quer enaltecê-las por serem enigmáticas, ou lamentá-las por passarem no fundo do palco e influenciar-nos o seu desespero. Não é que desesperem as coisas efémeras, mas transmitem-nos as impossibilidades de que não gostamos de ouvir falar: o tempo quando se estreita, quando já só falta um instante e depois acaba o que existiu e não chegámos a compreender. É como alguns poetas falam da vida: compreenderam que a vida se pode encurtar e manter todo o sentido porque não é o sentido que dá extensão à vida, mas um poema que, quer se perca na sua extensão quer se feche misteriosamente em poucos versos, nos faz pensar na vida e no sentido e em todas as coisas que desconhecemos, mesmo nas que ignoramos desconhecer. Por isto, quando lemos um grande poeta, podemos desistir de o ler e preferir fazer o que ele não fez que é estudar as coisas de que falou sem conhecer. Mas, embora poucos, alguns grandes poetas procuraram conhecer tudo o que era possível conhecer e deixaram o resto em versos que, por serem belos, nos ensinam a lidar com o que desconhecemos em nós, em dar sentido ao amor, a, finalmente, beber um copo de vinho e adormecer com o contentamento indefinido que a poesia proporciona.