Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SALMO 104, SEGUNDO ALEXANDER VON HUMBOLDT  

A inteligência fez-se antes dos astros como um molde de como as coisas deverão engrenar. Ela previu que as coisas ínfimas e simples poderiam habitar a imensidão, como bosões invisíveis ou aproximarem-se e repelirem-se segundo as conveniências de uma vontade de perfeição que nunca será consumada. Deu-lhes a luz para que, vendo-se, rejubilassem as que se amam e deu-lhes o espaço para que se afastassem as que se odeiam. As que se amaram, cresceram em torno de um fogo interior que veio com as palavras e fizeram sólidos e inabaláveis os astros; as outras tomaram o azul da tristeza e constituíram os céus como um manto e um limite onde as coisas quotidianas deverão acontecer. Entre a terra e o céu as águas viajam como os humores, entre o amor e o ódio, e escorrem das montanhas nevadas para os vales férteis e continuam até encontrarem os oceanos. Assim se tornaram complexas as coisas ínfimas e se chegou a um grau que reproduziu a própria inteligência. De início os gincos, os fetos, as cicas multiplicaram-se e revestiram os campos; depois esta vida quis mover-se e multiplicar-se sem que fosse o vento a espalhar as sementes ao acaso. Para isso, ganhou as barbatanas que remam nas águas a todas as profundidades, as asas que planam independentes do vento, mas, como ele, atravessam os continentes; também pernas para procurarem alimento nos campos e esta matéria que, diversamente, se move, cada espécie de ser com a sua inteligência resolveu a questão prática de darem origem a outros seres e assim sucessivamente. Os pássaros chilreiam e são belos e as fêmeas escolhem-nos e comandam-nos nos ninhos entre a folhagem tal como os peixes e os animais dos campos. Entre estes, o homem que cultiva a uva e se entorpece com o vinho; que cultiva o trigo e o cânhamo e a oliveira numa terra onde se fixou com as suas sementeiras e os seus animais. O sol e a lua de noite criam as marés, as estações; os aspetos da natureza apenas mudam as suas descrições, mas é impossível regressar a uma unanimidade, a uma síntese – a um cosmos unificado numa doutrina e num propósito.