Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE A COMPREENSÃO  

Dissociando a palavra da convicção, desviando esta do alarido cósmico que me salpica, o que uso de cada palavra são noções puras e inapropriáveis na sua unidade singular. Estar só desapropria a existência da sua imediata utilidade envolta de sensações: já não podemos concebê-la simplesmente porque estamos vivos e assim nos sentimos, i.e., estar só faz as coisas reverberarem, umas centrípetas e nítidas, outras saltam como os salpicos das vagas se libertam de uma unidade que só fez sentido momentâneo numa intenção ou num sorriso imperceptível. Tal como os campos na primavera e as fábricas sem parar, o meu pensamento produz o seu próprio lixo. Não o controlo – principalmente ao lixo difícil de reciclar: os pensamentos antecedentes cindem-se e mesclam-se com fragmentos de outros, cada um um foguetão ou uma flecha intencional autónoma e desregrada que numa muda fala interior logo se estilhaça. Alguém ouve ou não ouve, mas quando se está só o que percebemos como medo é um pó velho que dança ao espelho do sarcófago e, tal como o gato do Schrödinger, ignoramos em que estado nos encontramos. E não se trata de uma mera questão linguística: ora nos pensamos dentro da plausível realidade do devaneio, as palavras atropelam-se como quando perseguimos cavalos espantados e é noite, ora nos julgamos perante um aspeto surpreendente e teremos de repensar as coisas desde o princípio incluindo a própria forma do pensamento. O ponto importante é o que a linguagem faz de nós; a capacidade de acreditar torna-nos crédulos e, se a quantidade dos conhecimentos duplica em cada década, torna-nos céticos ou indiferentes. Quando encontramos alguém que nos escuta, as palavras tresmalhadas agrupam-se em torno de verbos que, em dada altura, nos parecem adequados e, se nos enganarmos, esperamos que essa pessoa nos corrija.