Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre a dialética

Quando dois burros iguais atrelados à mesma carroça, puxam em direções opostas, nenhum tem legitimidade para se considerar correto e criticar o outro por puxar na direção errada. Fariam melhor se iniciassem ensaios de cooperação intraespecífica. Ignoramos se foi este o caminho para a sociabilidade dos humanos, mas quando duas placas tectónicas colidem e dão lugar a um magnífico vulcão no meio do oceano, só após muitos séculos de arrefecimento se dará a colonização da ilha por várias formas de vida. Só então saberemos se o movimento das placas foi bom ou mau. Será preciso esperar que arribem as aves e que instalem no rochedo formas de vida que vêm com o vento. Assim, volta a colocar-se o problema da tensão entre substâncias que diríamos diversas tal como os burros que tracionam a carroça em sentidos opostos são como as nuvens que parecem idênticas, mas, quando estas chocam, produzem magníficos relâmpagos (da mesma forma que as placas tectónicas, os sismos). Portanto, está em causa a questão de uma certa identidade conceptual que gostamos de ligar à ação, mas, de outro lado, de a enraizar nos aspetos; donde: 1) desde logo o simulacro. As próprias pessoas variam a sua ipseidade ao sabor das circunstâncias, o que é inquietante. 2) Assim, pensamos que entidades essencialmente iguais se obrigam, por uma necessidade de harmonia, a procurarem sinergias, cada pessoa com o seu holograma, este diferente do seu holograma de há seis meses atrás. 3) Se, entretanto, malgrado iguais, colidem, temos de considerar providenciais os efeitos da colisão, ou seja, «bons»; mas se os efeitos resultam, efetivamente, «maus» é porque uma das entidades iguais era um simulacro. 4) Se são as diferenças estruturais que provocam antagonismos, uma terceira possibilidade seria os sismos e o que descreveríamos como o colapso elétrico das montanhas aéreas, que são enormes zonas de matizados coloridos, de diferente transparência e densidade, e de contrastes arrevesados, serem manifestações de uma ordem que se quer recompor. 5) Portanto, os burros que puxam um para a esquerda, outro para a direita, têm, provavelmente, cargas elétricas opostas – quando a carroça implodir, cada um disparar-se-á contra o muro do quintal, mas não perceberão porque magoaram a sua cabeçorra nem atribuirão a dor à não cooperação. 6) Mais uma vez, depois de a situação que os afastou os ter tornado diferentes, é a dor que os aproxima; quando a situação se resolve, são dois burros magoados; a diferença desapareceu, tal como só depois dos relâmpagos ou do sismo podemos avaliar se os efeitos foram benéficos. 7) No caso de duas pessoas envolvidas na mesma tarefa, como freiras (ou como soldados combatendo), e vestidas de igual, nunca são como dois burros puxando a carroça na mesma direção, os próprios burros poderão fazê-lo por razões diversas em cuja subjetividade não penetramos. 8) Este argumento é confuso, mas como decidir se é melhor caminhar na mesma direção ou divergir?