Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE A IDEOLOGIA LITERÁRIA  

O primeiro escritor dizia: «Escrevo porque gosto de desenhar letras, umas seguindo outras, infinitamente». O outro respondeu-lhe que a ele o que o entusiasmava era caraterizar personagens, fazê-lo com uma plausibilidade tal que era inexorável acreditar na sua existência. Que percebera lidar com a literatura como um charlatão; entrara num mundo sem regras nem critérios explícitos onde a linguagem adquiriu uma potência multiplicadora de soluções existenciais, não só quanto à quantidade das soluções, como se a vida se jogasse num tabuleiro de xadrez, mas, em particular, criando na escrita, níveis de existência das coisas e das situações que ultrapassam a realidade das coisas reais. Na verdade, notara que quer as emoções que as personagens lhe suscitavam quer os devaneios que construíam se complexificavam diariamente quer fossem devaneios de companheirismo aventuroso, de cumplicidade literária, de amor platónico ou de empenhamento numa militância política heroica. Em qualquer caso, a personagem exige uma atenção de criança recém-nascida e recebe do escritor afeto num formato inédito. Juntos editam jornais reformistas, proclamam manifestos histriónicos em que fingem acreditar e debatem largamente uma moral que os justifique. O primeiro escritor anuiu: confessou sentir um tropismo máximo que diverge da própria decisão de escrever e converge numa trama de heroísmos que ele tem de fazer sua. Mesmo num simples conto policial ou num romance histórico sobre os primórdios da lusitanidade, o escritor pretende explicar as determinações dos astros e os efeitos das suas conjunções na disposição ao crime, ou explicar, não apenas a história de um local no extremo de uma península no extremo de um continente, mas como e porquê as populações migram para os locais e, de uma forma mais ou menos civilizada, se organizam em dominadores e dominados. Modelos sociais mais horizontais, mais participativos, mais igualitários pressupõem um chefe ainda mais forte e um poder central ainda mais hegemónico como se a democracia e os direitos humanos fossem um luxo a que só recentemente a humanidade se pode permitir. Mas ambos concordaram na repulsa por uma literatura politicamente correta.