Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE A INOBJETIVIDADE DO OBJETO

Ao considerar o cisne, isolo-o no centro do lago cuja máquina de reflexos me atraiu. Pressentem-se os espíritos dormindo no fundo do lago agarrados ao seu tempo como ursos de peluche (a redundância do real toca os órgãos do amor). Num voo (cego) entre manchas de desconhecimento, inadvertidamente, toca-se o corpo de um deus (há uma psicologia do objeto, uma relação entre a minha abrangente individualidade e a sua). Num oceano (ao contrário do lago, a imensidão) escava-se uma excessiva compreensão, uma hipnótica lua de mar e fogo que a mente, ponto a ponto, rodeia de imagens sonoras, araras numa Amazónia de indícios, eu sempre a perguntar o que é e nunca é senão a autoria que parte atrás da nuvem. Desenha-se o fogo triturante do silêncio na aura do objeto impávido que se me dirige. A mesma falsa presença da «solidão» com o seu brando marketing de ócios pejado de mínimas alusões a utopias, a religiões e a tantas ideias de beleza e da suficiência da beleza. O meu olhar não penetra esse megafónico sermão dos tempos. Um paleolítico «útil/inútil» doura o objeto com aproximações e repulsas que os vermes da patine propagandeiam. Ao olhar um lago, simulo um corte entre os seus atributos e o tempo do cisne nadando. Ver o cisne sem tentar tocá-lo nem ouvir, dentro do «cisne», por extensão semântica, o mar. As imagens recorrem, o verso fecha-se, o objeto chocalha o seu abismo. O cisne foi um mau exemplo.