Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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SOBRE A MALDADE E O HORROR DAS PESSOAS HORRÍVEIS 

Quando nos declaram verdadeiramente horríveis, fecha-se um ciclo de terror como quando nos abrem a porta da cela onde estávamos em prisão perpétua. É uma surpresa. De repente, podemos suspender todo o esforço dedicado à bondade e deixarmo-nos ir como os papagaios da Amazónia que nunca aprenderam línguas e passeiam tranquilamente em Lisboa (como os turistas em pensão completa e como os sem-abrigos dependentes da sopa da misericórdia). Ser feroz é um compromisso com a existência fora da tradição cristã, mas ainda assim entrosado na ecologia do território. As pessoas afastam-se dos elementos ferozes como de um tigre que, contudo, apenas desempenha o seu papel na cadeia alimentar. Pode-se ser horrível de uma forma desapiedada próxima da do tigre para quem a morte a caçar é apenas uma refeição. Não lhe compete pensar no direito do veado ou da pacaça a existir nem sentir empatia pela sua satisfação com a vida. Pensa apenas quão rotundas são as coxas que irá devorar. Há animais ainda mais horríveis, o vibrião colérico que infeta o poço da aldeia e mata toda a população: «Porquê nós?», perguntam-se estupefactos os aldeões. É a cultura do castigo, evidentemente diferente da do tigre que nada do que de horrível faz é por maldade. Mesmo quando assedia a companheira de um outro tigre que acabou de derrotar, segue um critério (não por promiscuidade sexual como acontece com muitos humanos) de melhoria genética: fornecer à parceira os seus genes. Poderiam perguntar como se distinguem a repelência da maldade da repelência do horrível: 1) o horrível é propulsionado por disposições cuja brutalidade refreamos, mas reconhecemos em nós; o incivilizado, a besta, um núcleo perverso inespecífico que se poderia abrir a qualquer maquinação; 2) esse horrível é adaptado às condições naturais ou outras em que não hajam constrangimentos normativos; 3) nesse horrível enraízam muitas atitudes e sentimentos de grande mérito: a agressividade que se transmuda numa extrema cortesia e altruísmo, até, um pendor destrutivo que se expressa nas sublimações da arte, o ódio que se faz amor, o desejo selvático que se abre num sorriso; 4) esse horrível é néscio, não elaborado, oligofrénico; 5) esse horrível assusta-nos pela continuidade connosco; imaginamos uma circunstância em que a pulsão se liberte, e destruímos e matamos como se a personalidade não fosse senão uma ténue máscara quase transparente; 6) a maldade é elaborada com vista a um ganho que vitima alguém; 7) supõe uma liberdade de não ser maldoso e uma opção por sê-lo; 8) a maldade viola a norma, desconsidera a coesão social a favor de um individualismo interesseiro; 9) podemos compreendê-la sem a aceitar; 10) podemos aceitá-la com culpa e medo; 11) pode ser reduzida a razões com vista a aliviá-la da culpa. E muitas outras diferenças que sentimos especialmente na eminência do vómito que nos provocam. Quando nos declaram verdadeiramente horríveis, sentimo-nos descobertos: alguém olhou para nós como verdadeiramente somos; viu o núcleo horrível que reage ao mundo: o âmago da personalidade que toda a vida tentámos encobrir com a bondade foi reconhecido: «És um perigoso e indisfarçável psicopata. Deixa de armar em cão de cego quando és um tigre de circo que só dopado e entorpecido te apresentas em público. Temes a tua própria brutalidade». Como qualquer pessoa bondosa.