Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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SOBRE A NECESSIDADE DE TRETAS PARA O PENSAMENTO PENSAR  

Um discurso da treta agrava-se, se a temática também é uma treta. Uma treta é uma trivialidade que alguém promoveu a raiz da evidência. O olhar como opacidade. Claro que estamos perante a teologia da circularidade em que os sentidos se misturam e irradiam, como se um deus nos espreitasse quando duvidamos e nos quisesse, então, impedir de cair nas trevas (embora estivéssemos preparados para essa desiluminação). A treta tenta reduzir a especulação a um andar à volta de um totem (no sentido de autoridade) que nos empresta a visão de Deus (em sentido metafórico, do poder criador do olhar). Treta é a redução da suavidade harmoniosa das explicações metafísicas à simples posse da nitidez de si. São promessas de continuidade semântica a caminho de uma plenitude que então, extravasa do olhar, uma folha de silêncio que se opacifica à medida que se afina e chega aonde quer. Mas as tretas não conseguem apontar o que é relevante, apenas nos informam que, tal como o olhar não vê tudo o que há para ver, também a enormidade de certos conceitos não se materializa nos órgãos das palavras – preparadas apenas para nos alimentar, para nos fazer amar ou ameaçar – ou rezar ou inventar um conto para adormecer uma criança, mas não para a imensidão. Do espaço ou do tempo ou da criação do espaço e do tempo. Justifica-se um discurso da treta porque as tretas são o ruído do pensamento quando embate nas coisas imensas que não consegue explicar. É um ruído de monstros combatendo em fúria dentro das palavras. O pensamento atordoa-se, chocalha-as como a criança faz aos objetos cujas funções ignora. Até que se desconjuntem. Assim, o efeito em nós de querermos pensar o impensável: a linguagem desconjunta-se, soçobramos, caímos de joelhos e rezamos.