Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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SOBRE A PERPLEXIDADE DO ESPETADOR DO MEU SONHO

São os atributos do sonho: julgamos aceder ao teatro de Sófocles e assistir ao diálogo primordial sobre o que se passa num útero ou num abrigo antinuclear ou entre desconhecidos que perderam o comboio, personagens necessariamente indefinidas. Submetem-se ao mito do que as antecedeu. O espetador deve anteceder o sonho, olhos esvaziados pela distensão do acontecer na própria clausura da liberdade. A liberdade desfaz-se no labirinto indecidível do sonho – e refaz-se no labirinto de todas as razões: cada instante desagrega-se do seu fluir, a personagem perde identidade ou a identidade exibe uma colagem de estilos – patética na mudez da noite. Noite agitada pela correria, nem fuga nem susto, todas as portas fechadas, todas as ruas, bloqueadas por avalanches de pesadelos num espaço inominado escorrendo para um paul onde todas as palavras colapsam. Espécie de jazigo cujas sílabas não rimam em noite lata e síncrona, antes demoram e sugam da memória corpos idos que a personagem esconde do espectador do sonho. Na consciência, a plena transparência do anti-Sófocles de quem a linguagem se despoja não faz de mim o outro, o da minha voz estremunhada, mas o do enigma moral da liberdade com o seu fogo impenetrável. Quando a mente recomeça, remenda o real roto na atmosfera, eu caminho com a carga farta do desejo e da frustração. A mente desdobra-se sobre os coros da perplexidade e aparece a vagabundagem por uma infância clivada que se diz minha. Retomo a materialidade aeronáutica das coisas, retomo o mito de mim, rasante e insosso. Retomo a narrativa de mim num autómato que pareço eu servindo-me do anjo parvo que atravessa o espelho, o espectador, o tempo, a personagem, e se perde numa intuição. Isto que descrevo nunca pôde ser pensado nem intuído antes de escrito nem o que me supre jamais transparece senão na chuva encalorada de uma negação de mim. Como o vento esculpe e liberta a energia da vaga, o que me movimenta no poema são meros aspetos de uma memória que odeia o vazio. Acordo como o mar se evapora, digo «vida» do teatro etéreo das férteis palavras do sonho que a representação tornou inverificáveis.