Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE AS ANTÍTESES TEÓRICO-PRÁTICAS DO AMOR  

Poderá vir a existir uma teoria do amor distinta de uma teoria do absurdo: os submarinos do desejo pululam de malmequer em malmequer com os vaticínios no «bem-me-quer» agarrados. Todos reconhecem o que existe entre a voz a abarrotar de sentidos e o falo das preciosidades: promessas de ADN, saltos do ADN, hélices de ADN como drones sobre o futuro, abraços de ADN recém-conhecido, suor de ADN no teatro do trivial esvaziamento da maré, as vagas do ADN galopam diretas à cela do mel suave. Quantos estratagemas de duplicação culminam num «Amo-te!» mal pronunciado? Vê-se o heroísmo não contar, qualquer tema fortuito vinga num corpo de desencontros. Pura necessidade verbal do «tu»: testosterona contra estrogénios inventam-se num porto de subentendimentos – a cloaca masculina abre-se, a cavalaria avança sobre os blindados, o hino soa e arrasta os amantes. Impossível dizer quem vence e quem perde, quem guarda e quem nutre. «Sou placenta, sangra-me, chupa-me até a teoria rebentar». Na cópula das pérolas, cada pessoa toma as coisas pelo nome deserto e falha-se de um modo próprio (que não evita o absurdo). Perde esperança e ganha esperança num mecanismo sem substância donde a mente extrai a paisagem crítica (isto não é uma teoria do amor). Aos poucos, os dedos reconhecem na corça do enigmático, o verbo transitivo e o condicional. Na teia inescapável de uma literatura translúcida reconfiguram-se os sins das ostras profundas, tacto ávido de quietude no vidro do vento. Por vezes, é apenas um corpo de ninfa, outras uma invertebrada vontade de uma linguagem germinante que absorva o céu e, no afã do mesmo corpo, se desprenda: «Deixo-te a minha paz, não olhes o pus da minha alma nem o sangue que a respiração do teu nome solta». Ou recorda: «Quando saías, mar dentro, ao crepúsculo, a luz de mim atraía os cardumes e alimentava-te quando regressavas pela manhã». Como um lagarto adjetiva o jardim ao sol, não há lugar para a mente nesta supra-ordenação dos reflexos primitivos. Nesta fronteira da racionalidade onde muitos outros sucumbiram, as teorias do absurdo falham inexplicavelmente. Recordamos os estímulos fugazes e consistentes – espuma, mera permanência da improbabilidade das coisas necessárias como a alma das aves detém as tempestades.