Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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SOBRE O CÃO  

Há poucas situações mais estúpidas que o ladrar imparável de um cão pela madrugada dentro. Nós a acharmos que é o melhor amigo do homem e que se ladra assim é para nos proteger de um espírito que passou. Mas são quatro da manhã, o ladrar do cão desperta a vila para pensamentos estúpidos como estes e, se ontem morreu alguém, que outros augúrios podemos esperar senão que a morte anda por perto ensaiando as suas escolhas pouco criteriosas quer ladre o cão quer durma. Num lar de idosos estas ideias tornam-se obsidiantes e causam umas insónias envergonhadas pois ninguém confessará a atenção que dá aos indícios. É preciso inventar uma dor que arrepanha o cérebro como um saca-rolhas ou dizer o esparregado do jantar uma entidade revolucionária incompatível com a soporífera tranquilidade da noite. A idade esgota a capacidade de amar. Um cão ou um gato são fáceis de amar e de desamar: presenças simples que se apagam como uma vela e mais vale aproveitar para dormir sem andar às voltas com o significado das coisas. Num lar de idosos, a própria vida parece já não exigir que a estimemos, parece degradar-se automática e inexoravelmente sem tomar em conta a atenção que lhe prestemos – ou não. Ainda que não nos coloquem num lar, os filhos, os netos, a aldeia, a república, todos parecem dispensar-nos: parecem seguir um critério de utilidade quando nos cruzamos na praça, coxeando apesar da bengala, parecem dizer-nos: «Vens do passado onde dormes e sonhaste e fizeste reais os teus filhos. Hoje, eles querem lavrar as tuas terras, rasgar a papelada com as recordações que tu próprio esqueceste. Vai. Parte. Deixa que te substituam como um último sacrifício pelos amores que alimentaste e que, hoje, te dispensam». Uma cadela afugenta o rafeiro escanzelado que a rondava, um jovem pontapeia-o para que desapareça; os outros velhos na praça riem desdentados. Rir é como ladrar aos indícios.