Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre o conforto

O zoo é um experimentado modelo de coexistência pacífica – a humanidade, tranquilamente, visita a animalada, como Deus-pai terá feito a seguir à criação, isto é, guardadas as distâncias essenciais entre espetadores (como Deus-pai, os visitantes do zoo) e espécies fundamentalmente biológicas que, ufanos, tomamos como insucessos adaptativos (pelos nossos parâmetros civilizacionais). Sim, o cativeiro destes animais prova como erraram a sua estratégia adaptativa: contavam com reservas alimentares em territórios que não conseguiram defender, portanto, esse défice cerebral da capacidade de antecipar (do córtex frontal) levou-os a fiarem-se em instintos e em caprichos. Agora vivem como pensionistas à conta do estado social. O zoo é um bom modelo de solidariedade social. Também um número descomunal de humanos são deixados de fora, sem trabalho nem oportunidades numa sociedade que, contudo, os declara iguais e os deixa votar. O zoo tem uma administração central estável, os territórios estão definidos, a natalidade controlada, não há riscos de contaminação étnica, nem há outros pretextos para morticínios; as grades das jaulas podem ser vistas como delimitações fora de um referencial de liberdade. As grades pertencem à ecologia do bem-estar. Muita gente prefere um estilo de vida confortável como o do zoo e visitar as infelicidades planetárias apenas nos noticiários. Há sempre quem esteja pior, mas não é o caso no zoo. As mensagens do seu obscuro poder central (a direção do zoo) culpabilizam-nos por quase todas as espécies estarem em extinção, não só os tigres e outras que só existem nos zoos: todas excepto as que não são exibidas: os ratos, as formigas, as minhocas e as alforrecas. Não é que sejam imateriais como os anjos, mas coexistem com a humanidade, partilham o seu domínio e desafiam-na (são temidos os ataques das alforrecas aos submarinos nucleares, as suas descargas eletroquímicas, perturbam toda a electrónica de bordo e já deram lugar a guerras atómicas difíceis de justificar). No reptilário encontramos uma antevisão do cidadão do futuro imobilizado com os seus periféricos cibernéticos estimulando um cérebro que já não manda em si – ninguém manda em si, o próprio ambiente evoluiu para um formato de conforto semelhante ao preferido pelas iguanas, pelas pitões, pelos crocodilos, cada um na sua jaula que é uma miniatura do universo se este fosse perfeito e nos proviesse com o essencial para as necessidades da humanidade. Haverá lugar para a poesia num universo perfeito?