Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre o corpo do artista

Esgotadas as reflexões sobre o instante, a marca do gesto já não radica no mínimo. Sobretudo nas artes plásticas, a fugacidade torna aceitável qualquer aspeto, ainda que inverosímil. No passado fazíamos elegantes demonstrações sobre o que permanecia. Algures, alguma coisa a que cada palavra se referisse, mas estudando melhor o cérebro, percebemos que é um órgão oportunista pouco preparado para a verdade. Nada significa dizer que todos os artistas mentem. Argumentariam que tentaram a melhor aproximação, que são as obras que mentem e tanto mais quanto mais belas nos parecem, tanto mais quanto mais estáticas e solenes nos aparecem. Estas são as que defendem ostensivamente uma verdade, o seu autor, alguém que julgou chegada a glória e haver um limite para o que lhe compete descobrir. Uma bailarina que dança quase nua, pretende aliviar-se dos ensinamentos passados para que os seus saltos sejam instantes de regeneração. Depois, estaca em pé no centro do estúdio, mãos cruzadas sobre o peito e espera que o corpo encontre, também ele, uma resposta. Mas nem por um instante o corpo lhe responde mais que um simples «Sou contigo». Ela continua imóvel até o corpo extenuado lhe sussurrar: «Faz o que queiras, não olhes os meus limites». Há instantes em que a ilusão é máxima e mudamos a inclinação da vontade. Como um livro tem de ser concluído, é preciso uma cena que moralize o que foi escrito pelo gáudio da escrita, é preciso que, no final, algo seja revelado ou que nos transporte para um estado de bem-estar heroico ou para um superior estado de clarividência. Há uma retórica de estilos para finais de obra, mas tudo pode acabar num instante inesperado que não devemos dizer «absurdo» tal como um poema retorna ao princípio e, ao quedar-se, verificamos que apenas viajou pelo que podia acontecer e o acontecer resulta de uma insondável propriedade de conjunto. O corpo liberta-se dos seus urros, a fúria amansa-se com odores de final de tempestade. A perplexidade perante si dá lugar a uma estranha certeza. É quando os grandes artistas duvidam de si. Compreenderam a armadilha e detêm-se enquanto os outros se organizam para a glória e repetem-se sem nunca mais parar. Tornaram-se inércia, lixo; contaminados pela fugacidade dos instantes quando julgavam ter-lhe escapado. Apenas a bailarina, quando dançava quase nua, descobriu o corpo falar antes da linguagem e para essa dança não haver narrativa. É o seu limite: os instantes quando desaparecem no movimento, o corpo fala além do que se pode dizer.