Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE O FUNDAMENTO DA MORAL INDIVIDUAL

Por vezes a objetividade da razão obceca-nos por razões que nem sempre temos claras. No final da adolescência lemos alguns compêndios de filosofia. Não ofereceram tanto um travejamento para o pensar, mais, talvez, um inventário de estilos perante o desconhecido, também de atitudes morais a tomar, mas, sobretudo, puseram-nos a experimentar como encavalitar critérios estéticos nessas atitudes. Percebe-se em cada pessoa uma retórica pessoal para suprir a inquietação; percebemos existir um repertório estreito dessas figuras mentais e que a sua retórica não funciona. Esta educação enquista-nos numa atenção muito sensível à insustentabilidade do pensamento e desprezamos as pessoas que recusam aceitar a própria irrazoabilidade. As que praticam no que dizem descarados contrabandos entre os domínios dos conceitos. Depois, umas tentam seduzir-nos com trejeitos e piscar de olhos para que não as denunciemos, outras refugiam-se na subjetividade: dizem «Sinto que ...» ou «Tenho a intuição de que ...» requerendo para as suas produções mentais um estatuto de maior fiabilidade e maior universalidade do que reconhecem no pensamento dos interlocutores. Muitas destas pessoas têm a mente tão propositadamente acelerada que quando sentem alguma coisa desarticular-se já estão na ideia seguinte; esperam que as sigamos e achemos graça à vertigem. «Sendo assim, qual é o sentido?». Destas que põe assim o problema, muitas não encontram uma resposta satisfatória e acabam por se matar sem perceberem que, mais uma vez, a própria pergunta não se resolveria sem uma adequada definição de «sentido». Não compete à mente defini-lo: numa certa acepção, está fora do seu alcance: ela dedica-se ao que existe. Só invocando uma fluida noção de harmonia se acentua um sentimento de falta ou de incompletude que se objetiva na expressão «infelicidade» que é explicada, justamente, pela falta de sentido. Percebe-se que é muito mais fácil ter fome: a própria fome organiza um comportamento que a soluciona, no limite roubar qualquer coisa no mercado ou na horta do vizinho que é o que uma raposa ou uma águia também fariam nessa circunstância. Por alguma razão desconhecida são as pessoas que não têm fome quem mais frequentemente põem a questão do sentido. Passeiam contemplativamente nos jardins e veem-nos alindarem-se ciclicamente sem outro propósito que cumprir um programa interior a cada ser que integra o jardim; cada roseira, cada cipreste, cada buxo leva essa determinação a um ponto que parece relacionar-se com a nossa ideia de jardim e de beleza e se descobrimos umas ervas daninhas dizemos «Falta de atenção do jardineiro», se são as rosas que secaram, dizemos «Falta de água», se a alameda de ciprestes cresceu assimétrica, dizemos «Falta de previsão do arquiteto que não considerou a incidência solar». Sempre uma bem fundamentada falta organizada no que decorre de uma beleza que está nos olhos humanos, de uma noção de jardim que volta a ser um espaço domesticado pelos humanos com vista a uma felicidade que nem os humanos compreendem bem, mas cuja falta faz alguns sofrerem e suicidarem-se.