Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre o nariz e a sua ausência

SOBRE O NARIZ E A SUA AUSÊNCIA   Tinha um nariz interessante. O passado (tinha) refere à memória de um nariz que marcava a simetria do rosto tal como num planisfério, um rumo pelo oceano, sempre o mesmo. Aqui e ali afloravam porções de uma selva com graus variáveis de darwinismo. A própria noção de que a mímica do rosto traduz uma movimentação tectónica faz-nos rumar com uma nova noção idealizada de beleza. Perguntamos se é possível voar malgrado estas imagens oceânicas, mas o nariz é uma quilha que deixa as palavras procurar afinidades equilibrando os efeitos do vento, portanto é possível com a rapidez surda de uma negociação fracassada superar a densidade matraqueada de um atração temida. O nariz sofreu evoluções diversas, mesmo desconsiderando por agora espécies como o elefante ou o cachalote e focando-nos nas funções extra-olfativas entre os humanos; temos: 1) o nariz que arranca decidido da arcada ciliar e aponta o inferno como se condenasse alguém com razões explícitas, embora privadas ou injustas até; 2) o nariz que curva depois da testa, mas logo se arremete para diante sem arrebitar mas arrastando os maxilares puxando a boca para o centro do rosto como se estivesse sempre na eminência de dizer algo de muito importante; 3) o nariz que se encurva e contracurva para terminar fino e nada mais houvesse a dizer; 4) nariz que se arredonda na ponta pois que o esférico se adapta a todas as funções, podemos reescrever a história do pensamento procurando as ilhas de perfeição onde a esfericidade foi atingida; 5) nariz pequeno como uma ilha que se afunda e desaparecerá, ainda que não suba o nível dos oceanos; 6) nariz de que não há nada a dizer; são raros dada a posição central no rosto; provavelmente, de um rosto que achámos desinteressante. Mas, não existindo o nariz ficamos desconfortáveis com as entradas nuas do ar no corpo, mesmo que a pessoa seja eloquente, fulminante o seu olhar, sensual o seu corpo reforçando o sentido do discurso, fixamos os reatores esperando que cada expiração propulsione o pensamento por astros inéditos e que viver sem nariz se transforme numa experimentação com as partes dispensáveis do corpo. Sentimos uma piedade variável por alguém sem um braço (maior se lhe faltarem os dois), sem um pulmão, sem um dos rins, sem uma orelha, mas, se o nariz falta, perdemo-nos nos acidentes do rosto.