Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre o papel das teorias na história

Há um dia e uma hora em todo o mundo em que as mães visitam os jardins com os seus filhos. Têm as melhores intenções, mas nenhuma teoria da maternidade e têm do instinto uma obtusa noção de sabedoria natural. Só décadas mais tarde tomam consciência das suas consequências. Podemos avaliá-las de vários ângulos, sempre em termos da deriva das experiências no jardim até se tornarem informação e, muito mais tarde, emergirem como sintomas: 1) de como a memória de um colo extenso e aberto pousando num roseiral passa à rede de perigos sobre um fosso de víboras; 2) de como a voz soprada que avisava sobre os riscos se associou à sirene inaudível que faz suar e tremer; 3) de como o voo nos braços do polícia simpático que atirava as crianças ao ar se estendeu a uma aversão à autoridade que nos vigia com câmaras de vídeo e nos impõe regras severas dentro dos aviões; 4) nalguns casos, como conduziu a uma antipatia anarquista por qualquer autoridade; 5) de como a pressão suave exercida para urinarmos contra o plátano do jardim, as perguntas demasiado frequentes que nos obrigavam a monitorizar o intestino, reapareceram, tanto tempo volvido, como uma preocupação com a assepsia do indicador direito a ponto de o desinfetarmos com éter várias vezes ao dia, o que acaba por nos inebriar e sossegar; 6) o próprio tempo no jardim, a sua arrastada demora, as suas fomes inexprimíveis, as saciedades precárias, como fazem a imagem oscilar entre um jardim de buxos francês, de tão perfeito, aborrecido como se houvesse uma câmara de torturas escondida na cave de qualquer palácio e um polo oposto de inibição e desistência; 7) de como as indicações, os avisos, as ordens que então nos davam, agora se informularam no sentido de a linguagem se desdobrar em significações antagónicas que nos fizeram clivar o eu numa instância que seguia um sentido e noutras que seguiam outros sentidos; 8) de como, assim, o que parecia uma vontade se esfarelou, incapaz de conter a informação incólume. Mas não podemos ignorar que, apensa à informação, ou antes ou depois, existe um contexto afetivo, um valor, uma emoção que ora resplandece no corpo ora o amortalha e espicaça com lancinantes bisturis. As manipulações do corpo tornaram-se abstrações, os dedos que nos cuidaram penetraram-nos demasiado. Agora o corpo esfuracado deixa sair palavras que não compreende, mas que espiralam em torno da nossa cabeça de solucionadores de mistérios. Seria precisa uma boa teoria da maternidade que orientasse as mães que visitam os jardins com os filhos, os mesmos jardins onde namoraram, onde antes faziam as suas diatribes de adolescentes, onde, ainda antes, passearam pelas mãos dos seus pais embevecidos, e agora tentam fazer tudo melhor ainda. Portanto, não se trata tanto de uma teoria de boas práticas maternas, mas de uma teoria translinguística das significações que elucidasse as metamorfoses dos gestos: o que os torna significativos (explicitando «significativo»), como são simbolizados, i.e., reduzidos a cinzas radioativas libertando energia positiva ou negativa (explicitar o critério de «positivo» e de «negativo»); aqui é avisado que evitem cuidadosamente enredarem-se no conceito de verdade, que procurem outro referencial qualquer. O que as mães precisam de saber são os efeitos das suas lamechices e dos seus ensinamentos históricos descontextualizados, das suas deturpações físicas e meteorológicas servidas em modo sobrenatural, das sucções e das privações aplicadas independentemente do mapeamento funcional do corpo infantil. É preciso uma boa teoria psicológica do estocástico (as sobredeterminações freudistas não tinham suficiente valor literário) de modo que, no jardim, cada mãe possa exatamente escolher a configuração de informação e de afeto que otimizará os recursos do seu filho ou, pelo menos, evitará tudo o que possa conduzir a perturbações do comportamento. Mas, e o pai, perguntarão; qual o seu papel? Não passeia também ele no jardim, não atira os filhos ao ar mais alto que o polícia, não é ele mais desleixado com a comida e as fraldas que a mãe? A resposta do autor, farto de castrantes critérios literários politicamente corretos, é que, ao contrário da Joana Scott, não considera a variável género relevante na análise dos processos históricos, nem a nível individual, nem político, nem cultural (embora possa sê-lo na educação dos filhos, mas este texto sobre a instintividade político-cultural, não pretende ser uma teoria da influência da maternidade sobre a personalidade).