Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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SOBRE OS CONCEITOS QUE ORGANIZAM O QUE DIZEMOS  

Não sei o que é Leviatã. Nunca me fez mal nem bem. Ignora-me, contudo deverá existir como um fiscal das finanças ou um técnico de embalsamentos, mas não numa escala capaz de interferir com equilíbrios ecológicos mais brejeiros. Se Leviatã, como qualquer animal coletivo, bebesse as reservas de petróleo do planeta reposicionaria a malvadez do sistema sem verdadeiramente o mover para uma antítese pura e justa em que cada um de nós pudesse tirar o capacete e andar pelas ruas falando das coisas que ainda não puderam ser ditas. Ou, como se as tivéssemos visto, sossegássemos. Leviatã é um anti-conceito, um desiderato destinado a modificar o conceito de humano e a sobrepor tudo o que já foi escrito e incorporado numa síntese utópica totalmente descartável. Alguns filósofos do passado falavam de nós como máquinas desejantes – não se tratava de uma forma pejorativa de aludir ao «todos contra todos» que nos carateriza quando despertamos de um sonho que não conseguimos levar para diante. Há uma necessidade de soluções que não olha a meios ou que nos pode obrigar a mutilações maiores do que esperávamos. Não só nos desapossam do jardim onde crescemos, mas decompõem o próprio ócio que preenchíamos com uma incessante reflexão sobre as reflexões já editadas. O andamento geral que ninguém foi capaz de prever persiste como causa suspeita e voltamos a Leviatã. Já a reflexão sobre o movimento subjacente a todas as causas assenta em energias opostas (embora a oposição decorra da reflexão e nada garanta que as energias se confrontem). Um monstro que nunca nos fez mal é, apenas, a minha necessidade de monstros, de simplificar ainda mais as clivagens naturais – a noite e o dia, ou antes, a noite e a redundância, o calor e uma frigidez de nuvens brancas, o frio e a dureza que sobeja de um glaciar, o limpo e o opíparo que redunda num vómito ou o sujo sobre o mármore de uma autópsia. Até à vertigem acinética de uma compulsão o que posso opor senão a nobreza estática que, se não vence a escuridão, também nunca me dá o dia, nem o duro orvalho, nem, sobre a mesa gélida, esclarece a causa da morte, os bisturis do alvorecer incluídos em tudo o que possa servir uma solução. Se o limpo e o sujo absolutos são indefiníveis, o falso é apenas uma vertigem que não encontrou ainda uma fórmula de aceitação como uma peça de teatro nos deixa estupefactos e não a aplaudimos ainda.