Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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SOBRE OS JARDINS PÚBLICOS  

Assim como, num jardim, deparamos com a personalidade do seu proprietário, também, num parque público, lemos a previsibilidade democrática dos canteiros e de espécies de plantas politicamente corretas. No jardim, individualmente, as cóleras do jardineiro que mutilou os cedros, os seus ardores passionais quando projetou o roseiral, as lágrimas de crocodilo que acompanharam os dias do jacarandá, o folgar com a cerejeira, o rojar-se como um linguado no relvado que acabou de aparar; tudo, no jardim privado, resulta da harmonia dos destemperos do jardineiro cruzados com a geografia do solo. Num parque (público), como num enorme Rorschach estatal, as pessoas projetam a sua própria intimidade com um recato variável. Percebem-se as preferências sexuais dos passeantes e os seus vícios, exibidos como atos no vazio ao alcance de qualquer um desde que apreciados com a reverência devida à cultura liberal da tolerância. Uma grande cultura produz belos jardins com a mesma legitimidade com que aprofunda um decote ou ajusta as calças às formas dos genitais ou transforma a lamúria da fome no cântico da adolescência perdida ou na epopeia do voto útil. De entre todos os modos de jardim, os franceses primam pelas convidativas sugestões eróticas em discretos arranjos de buxos labirínticos. Há uma elegância exuberante e palavrosa que chocará num parque britânico. Pelo contrário, nos jardins mouriscos há uma pesada intervenção sobre o solo como se a natureza fosse imprestável sem a manipulação humana. A presença da água é linear ou geométrica enquanto nos jardins japoneses a ideia de miniaturização do mundo e da domesticação das suas forças mais críticas pode chegar aos limites de um gosto obsessivo pelo controlo, mas enquanto nos jardins árabes esse domínio da natureza serve a ostentação do poder ou da riqueza, nos japoneses serve uma ordenação do mundo propícia aos pequenos pássaros cantadores e contemplativos. Do mesmo modo que os jardins, os cemitérios mostram como a vida se arreiga num povo e como a morte, tal como o sujo e a maldade, polariza os arranjos arquitectónicos das multidões silenciadas.