Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre tudo o que ainda não pensámos

Não sabemos bem o que pensar das coisas possíveis; tornaram-se tão prováveis que preferimos, em geral, nada fazer para que aconteçam. Não se trata de jogar com o destino, mas de tentar compreender a natureza das coisas impossíveis. O estado da arte atualmente é: 1) ainda ignoramos quem as declara «impossíveis», 2) se esse alguém usa critérios que são interiores às coisas, uma inconciliabilidade estrutural ou, 3) se os critérios são semânticos, i.e., coisas descritas de forma que os termos da descrição sejam verbalmente incompatíveis ou, 4) se os critérios são histórico-situacionais, i.e., as coisas serem impossibilitadas pela incongruência com as normas e com os valores prevalentes numa circunstância ou, 5) se os critérios são psicossociais, i.e., algumas coisas serem declaradas impossíveis com a finalidade de serem realizadas pelos cidadãos que transgridem ou, 6) pelos que agem em função de desafios. Por outro lado, 7) muitas coisas impossíveis dependem de uma instrumentação inexistente e serão resolvidas por uma melhor sofisticação tecnológica, enquanto outras observações naturalistas, 8) ora deparam com impossibilidades, incertezas e inconclusões que resultam da própria atitude em relação a essas observações, i.e., «vejo o que a teoria me faz ver», ora, 9) a natureza das coisas que limitava o seu universo de possibilidades, pode ser alterada, assim sendo possível ultrapassar o aprisionamento na própria essência de cada coisa (que se pode tornar outra). Cada pessoa escolhe que impossibilidades a entusiasmam: 1) algumas assumem a vacuidade do impossível; em bicos dos pés, de ombros largos e olhos muito abertos declaram coisas impossíveis meramente como afirmação e domínio sobre a carneirada que as segue. Perguntamos porquê e constatamos logo detestarem a imensidão de uma planície, perderem-se no excesso de possibilidades de uma floresta, acabarem as noites sistematicamente bêbedas. Fica impossível ao tirano libertar-se do autoritarismo, cada vez lhe pedem mais interdições e impossibilidades. 2) Os alquimistas tal como os cosmólogos e outros grandes mistificadores que jogam com as distâncias entre os astros, movem-nos como se aproximassem amantes ruborescidos ou eliminassem rivais desavindos. Para eles o possível determina-se na redação do horóscopo, por ele se chega ao muito da sorte – e à resignação porque assim estava escrito na estrutura das coisas. 3) Pela palavra domina-se o universo, dizem os grandes retóricos, os criadores de impossibilidades reversíveis à medida do seu oco ávido de admiração. E quanto mais se enfatuam mais lhes saem propícias as palavras. Como grandes assassinos, aniquilam o pulso espontâneo das palavras; de si à vítima, elos emaranhados, perspetivas enredadas, neblina lacrimogénia. 4) Muitos excêntricos compreenderam os mecanismos da impossibilidade social, quanto era volúvel a autoridade dos seus códigos, os próprios deuses venerados segundo procedimentos locais. A ânsia de absoluto é uma comichão que dói em poucos, um impossível que se resolve numa oração qualquer. 5) Pois o estado que é o grande resíduo das impossibilidades mais contestadas, é despudorado e inescrupuloso nas suas leis que visam efeitos e não defendem senão a própria autoridade; leis que incitam à desobediência, à opacidade, à marginalidade por referência a uma noção de bondade hipócrita e bota-de-elástico. 6) Muitos psicopatas poderiam ter sido heróis e foram-no como o Zé do Telhado ou o Robin de Sherwood, mas a maior parte não teve oportunidade de elevar a transgressão acima da desordem. Humilharam-lhe a mulher, saquearam-lhe a casa, mataram-lhe o filho, venceram-no à fome e antes que o perdão chegasse, fuzilaram-no. Contudo, são as incoerências sistémicas que fomentam a rebelião – e a correção, a mobilização das redes sociais a favor de palavras de ordem logo ditas utópicas. E sê-lo-ão, mas 7) os melhores cidadãos sabem esperar a ocasião, ou criam as tecnologias que inflectem os limites da situação e o que foi impossível é uma longa infância de premonições, ainda que outros, 8) se enclausurem em teorias mais belas e simples que um pôr-do-sol, mais entusiasmantes que uma paixão recente, mais englobante que qualquer deus conhecido e dizem inevitável um resíduo de inexplicabilidades que tanto pode inviabilizar a teoria como transformá-la num princípio geral da compreensão, mesmo quando analisamos a mobilidade social num aviário, o trajeto de um cometa cujas premonições nos surpreenderam ou uma estrela ensanguentada fora das galáxias habituais. Mas, 9) desde da Vinci habituámo-nos a superar o que pareciam ser os constrangimentos toleráveis, impostos pelo corpo uns, outros pelo pensamento que não se desdobra além da consciência nem fala mais do que a mente alcança. Hoje voamos, passámos o limite do ínfimo e do imenso, pensamos e vemo-nos a pensar numa grande diversidade de monitores que assinalam a vida sem mencionar a sua improbabilidade nem as impossibilidades que persistem.